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Leilane Assunção, a professora trans que não esperou a vida passar

Conheça a história da militante universitária que morreu este ano no Rio Grande do Norte e deixou um legado de luta e resistência

dezembro 28, 2018 às 10:48 - Por:

Arte: Keops Ferraz/OP9

Arte: Keops Ferraz/OP9

Não foi só em 2018. Mas a vida inteira. 2018 foi apenas o ano que tudo poderia ter mudado, mas não mudou. 2018 serviu apenas para mostrar – da maneira mais triste – o quanto é preciso para defender os direitos da população trans. E quanto essas pessoas podem sofrer. Leilane Assunção da Silva morreu aos 37 anos, dia 13 de novembro, às 5h.

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Antes disso, teve de lutar contra o preconceito para assumir que era Leilane, não Leandro, nome de batismo. Filha de família evangélica, não se deteve por causa disso. Na universidade cursou história, fez mestrado e doutorado. Em 2012 tornou-se a primeira professora universitária trans do Brasil, na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN). Depois, em 2013, tornou-se a primeira professora universitária federal trans do Brasil, na UFRN.

Mesmo assim, sempre teve problemas dentro da universidade. E sempre por causa da sua identidade. Exemplo disso foi que teve de lutar 11 anos pelo direito de usar o nome Leilane, o que só foi conseguir em 2011. Depois disso, teve de processar (e ganhou, em 2017) uma técnica administrativa da UFRN que se negava a reconhecê-la como professora e abrir a porta da sala de aula.

Em vida, queixava-se do fato de mesmo sendo plenamente capacitada nunca conseguir ser aprovada para ocupar uma vaga de professora efetiva. Sentia-se perseguida. E tinha razões para isso. Tentou quatro concursos. Ficou sempre em segundo. Em 2018, após o fim do contrato de professora substituta e o final da bolsa de pós-doutorado, a situação ficou mais difícil. E foi isso uma das razões de seu adoecimento e sua internação.

Dias antes de morrer, teve uma melhora relativa, animada pela possibilidade de conseguir emprego em um cursinho. Mas já era tarde. Dia 13 de novembro morreu Leilane, a mulher trans que nunca foi realmente aceita na universidade, mesmo sendo a primeira professora trans do Brasil. Basta para isso consultar seu currículo Lattes e verificar que toda sua imensa produção intelectual ainda leva o nome “Leandro”. “Quando a gente é trans, a militância não é uma opção. Ou a gente luta, ou a gente morre”, ensinou a professora.

Everton Dantas

Jornalista. Editor do OP9 no RN

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