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“Golpe de 1964 marca início da tortura, da perseguição e da morte”

Familiar de Luiz Maranhão, um dos potiguares mortos e desaparecidos durante a ditadura, conta como é conviver com uma morte que não termina e repudia comemoração ao golpe

Março 31, 2019 às 09:09 - Por:

A casa de número 305 na avenida Prudente de Morais, bairro de Petrópolis, Natal, tem uma morte que não termina. O imóvel de muro amarelo sobre o qual recai uma franja vegetal fica hoje numa área onde há poucas residências, no bairro de Petrópolis, próximo à praça Pedro Velho.

É lá que mora e trabalha o arquiteto Haroldo Maranhão Bezerra Cabral de Brito, 60 anos. Ele é sobrinho-neto de Luiz Ignácio Maranhão Filho, um dos mortos pelo regime ditatorial que nasceu em 31 de março de 1964.

Quarenta e cinco anos após ele ter sido preso numa praça em São Paulo e nunca mais ser visto com vida, a verdade sobre o que aconteceu jamais foi revelada. Até hoje a família tem de lidar com versões sobre o ocorrido. E diante dessa dor, não consegue aceitar de maneira nenhuma a ideia de celebrar o golpe de 1964; algo que, para eles, segue sem ter fim.

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Haroldo é um dos sete sobrinhos-netos de Luiz Maranhão, que não deixou filhos. Nascido em 25 de janeiro de 1921, Luiz era advogado e foi professor do Atheneu Norte-rio-grandense, da Fundação José Augusto e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ele inclusive é o único professor da UFRN morto pelo regime ditatorial instalado em 1964.

O arquiteto era criança quando, em 31 de março de 1964, os militares tomaram o poder. Do período ele guarda uma lembrança singular: os jipes usados pelo Exército, que se tornaram presença constante na residência da família.

Com relação ao tio-avô, ele diz que conviveu muito pouco. Mas isso não impediu de criar uma memória afetiva com relação ao familiar. “As memórias de criança são de um homem cordato (sensato), bem humorado, brincalhão e que estava sempre preocupado com o bem estar dos outros da família”, conta.

E acrescenta: “Era um homem apaixonado pela vida, pelos seus semelhantes, pelas liberdades democráticas e que defendia um mundo mais fraterno e digno para seus compatriotas. Por isso, desde o início que ele passou a manifestar esse pensamento, ele passou a ser perseguido”.

Ficha de Luiz Maranhão no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Foto: DHNET

Ficha de Luiz Maranhão no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Foto: DHNET

Luiz Maranhão entra para o Partido Comunista em 1944
O advogado e político potiguar Luiz Maranhão foi preso em 1974 e é um das vítimas do golpe de 1964. Foto: Acervo Família

O advogado e político potiguar Luiz Maranhão foi preso em 1974 e é um das vítimas do golpe de 1964. Foto: Acervo Família

Luiz Maranhão entrou para o Partido Comunista Brasileiro em 1944, em Maceió (AL), quando ainda cursava a faculdade de direito. Em 1952 ele foi preso pela primeira vez, após denunciar torturas que estariam acontecendo na Base Aérea de Parnamirim.

Em 1958, ele conseguiu se eleger deputado estadual. Exerceu o mandato até 1962. Em 1964, quando eclodiu o golpe, voltou a ser preso e foi demitido do cargo de professor do Atheneu. A prisão durou até final daquele ano.

Haroldo Maranhão, o sobrinho-neto, relembra que nessa época acompanhava o sofrimento da família por meio da aflição da avó, Netécia Maranhão. Após ser solto, Luiz Maranhão foi para o Rio de Janeiro e entrou para a clandestinidade.

“Eu lembro da angústia da minha avó, assistindo televisão, e vendo notícias de algumas gráficas que eram estouradas. E que eram atribuídas ao Partido Comunista. E ela ficava muito preocupada com essa questão”.

Nessa época, os familiares só conseguiam ter notícias incipientes sobre o familiar. Em 1972, a família de Luiz Maranhão foi ao Rio de Janeiro e conseguiu encontrar com ele. Foi a última vez que isso aconteceu.

Em 1974, no mês de abril, Luiz Maranhão fez uma viagem a São Paulo. No dia 3 ele foi preso numa praça na capital daquele estado. Segundo Haroldo Maranhão, os relatos são de que seu tio-avô teria sido preso pelo delegado Sérgio Fleury. Depois disso, Luiz jamais foi visto com vida novamente.

Somente em 1996, no dia 5 de dezembro, 22 anos depois, a esposa de Luiz, Odette Roselli Garcia Maranhão, recebeu a certidão de óbito dele. Posteriormente, em 2000, o juiz federal da 3ª Vara Federal de Natal, Francisco Barros Dias, reconheceu o direito de Odette a receber indenização no valor de 100 milhões de cruzeiros reais.

Mas a viúva e o restante da família jamais receberam o que mais esperavam (e esperam até hoje): a verdade. Ela, assim como a avó de Haroldo, morreram sem saber o que aconteceu com Luiz Maranhão.

Hoje, o arquiteto, sobrinho-neto mais velho, é de certa forma o herdeiro dessa memória que não fecha. Do que, segundo ele, é uma morte que não acaba; e que deve passar de geração em geração. Uma dor que – na cisão deles – não pode ser esquecida; nem muito menos comemorada.

Golpe de 1964 fez outras vítimas no Rio Grande do Norte
Virgílio Gomes da Silva (1933-1969), potiguar, o primeiro desaparecido político no Brasil. Foto: acervo familiar

Virgílio Gomes da Silva (1933-1969), potiguar, o primeiro desaparecido político no Brasil. Foto: acervo familiar

A ditadura que nasceu no dia 31 de março de 1964 não teve, no Rio Grande do Norte, Luiz Maranhão como única vítima. Pelo menos outras 10 pessoas morreram direta ou indiretamente em decorrência do golpe. Assim como Luiz Maranhão, também são desaparecidos Virgílio Gomes da Silva (1933 – 1969) e Hiran de Lima Pereira (1913 – 1975).

O primeiro era natural de Sítio Novo, na época município de Santa Cruz. Foi preso em 29 de setembro de 1969. No livro Marighela, do jornalista Mário Magalhães, é o único personagem que foi retratado em dois capítulos. “Seu corpo jamais foi devolvido à família. Conhecido pelo nome de guerra ‘Jonas’, Virgílio tornou-se o primeiro ‘desaparecido político’ da ditadura parida em 1964”, descreveu o jornalista em seu blog.

Hiran Pereira era natural de Caicó e tinha 62 anos quando desapareceu em 1975. Seu corpo jamais foi localizado. Além deles, também constam como potiguares mortos durante a ditadura Anatália de Souza Alves de Melo (1945 – 1973), Édson Neves Quaresma (1939 – 1970), Emmanuel Bezerra dos Santos 1947 – 1973), Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa (1950 – 1973), José Silton Pinheiro (1948 – 1972), Lígia Maria Salgado Nóbrega (1947 – 1972) e Zoé Lucas de Brito (1944 – 1973).

O ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão (1915 – 1971), era irmão de Luiz Maranhão e, após o golpe de 1964, foi deposto, preso e teve seu mandato cassado. Após ficar detido até o final daquele ano, foi para o exílio, em Montevidéu, no Uruguai. Morreu exilado, aos 55 anos, após ter uma parada cardíaca.

Everton Dantas

Jornalista. Editor do OP9 no RN

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