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Baracho: assassino que morreu pedindo água e virou santo em Natal

João Rodrigues Baracho foi executado com 22 tiros, quando tentava fugir, com sede, indefeso. Depois de morto, pediu orações e velas. É atendido até hoje

novembro 1, 2018 às 16:21 - Por:

Baracho, cemitério do Bom Pastor, Natal. Arte: Keops Ferraz/OP9

Baracho, cemitério do Bom Pastor, Natal. Arte: Keops Ferraz/OP9

“Ontem, pouco depois das 18h30 horas, foi morto o facínora João Rodrigues Baracho nas proximidades de uma vila existente na Avenida 16, confluência com a Avenida 9, no Carrasco, próximo a um local conhecido como ‘Cajueiro Mal Assombrado'”.

Foi assim que o principal jornal do Rio Grande do Norte na época, o Diário de Natal, noticiou a morte do suposto assassino de taxistas que, na década de 1960, tornou-se na imaginação dos moradores da capital o terror em pessoa.

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Natal era uma cidade pequena, com população aproximada de 160 mil pessoas. E estava horrorizada com uma suposta série de mortes de taxistas ocorrida na capital. E também impressionada com as histórias de fugas e outros crimes contados pela imprensa acerca de Baracho.

Capa de jornal do dia 2 de maio de 1962, noticiando a morte de Baracho. Foto: Reprodução/Diário de Natal

Capa de jornal do dia 2 de maio de 1962, noticiando a morte de Baracho. Foto: Reprodução/Diário de Natal

A edição extra noticiando a morte do então criminoso circulou no dia 1º de maio de 1962. A manchete foi “Fuzilado Baracho”. Ele morreu desarmado, caído, com sede, no dia 30 de abril, atingido por 22 tiros, no total. De acordo com a autópsia, do total, 7 o atingiram de raspão.

Baracho morreu após conseguir fugir da prisão. No então bairro do Carrasco, tentou junto a moradores conseguir se esconder e um pouco de água. Não conseguiu nem um nem outro.

Morreu com sede, em fuga, denunciado por uma moradora do local. Ela inclusive, dias depois, posaria sorrindo para ser notícia no Diário de Natal da época.

Ele foi enterrado no dia 2 de maio, no cemitério do Bom Pastor, no bairro de mesmo nome, Zona Oeste da cidade. Também dias depois de sua morte, a execução foi detalhada e ficou evidente que se tratou de um crime covarde.

Imprensa ajudou a construir o culto em torno do bandido

Da mesma maneira que Jararaca, cangaceiro que virou milagreiro em Mossoró, Baracho era considerado um bandido cruel. E teve morte trágica, por alguns considerados covarde.

Também da mesma maneira que o ex-integrante do bando de Lampião, sua história foi transmitida com a ajuda da tradição oral e da imprensa. Mas guarda outros elementos.

Alguns deles foram notícia. Em 3 de maio daquele ano, vereadores de Natal criticaram a forma como o “monstro” foi assassinado. Ali, já havia relatos de que ele havia sido executado, indefeso.

Em 21 de maio de 1962, após meses de cobertura a fio da imprensa apontando ele como assassino de pelo menos três taxistas, João Rodrigues Baracho foi inocentado de duas mortes.

Baracho, morto, pediu orações e velas
Imagem de Baracho preso, feita em 1962. Foto: Reprodução/Diário de Natal

Imagem de Baracho preso, feita em 1962. Foto: Reprodução/Diário de Natal

E em 30 de abril de 1963, o pai de santo Joaquim Cardoso da Silva disse ter tido contato com o espírito de Baracho. E que ele havia pedido, entre outras coisas, preces e velas de “pessoas bem intencionadas para diminuir o peso da pena a que foi submetido pela Justiça do além”.

O pedido, ao que parece, surtiu efeito. Em 1971, no Dia de Finados daquele ano, cerca de 10 anos após a sua morte, o túmulo de Baracho já havia se tornado ponto de culto, oração, velas, promessas e agradecimentos.

Não se sabe em que momento exato isso aconteceu, mas às velas se juntaram garrafas com água, alusão ao fato dele ter morrido com sede. Isso permanece até hoje. O túmulo, durante todo o ano, tem água.

E nos Finados é sempre o mais visitado. É nessa ocasião que se ouvem os relatos de graças promovidas por Baracho, o que retroalimenta a crença de que ele se tornou santo.

Nenhum dos policiais que participou da sua execução foi condenado pelo crime. Nem tampouco virou milagreiro. A justiça dos homens absolveu a todos. A divina, tratou de esquecê-los.

Em 1971, o culto ao túmulo de Baracho já estava consolidado no cemitério Bom Pastor. Foto: Reprodução/Diário de Natal

Em 1971, o culto ao túmulo de Baracho já estava consolidado no cemitério Bom Pastor. Foto: Reprodução/Diário de Natal

Everton Dantas

Jornalista. Editor do OP9 no RN

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