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Vigilantes de carros-fortes: rotina de risco e acúmulo de doenças

Transportar valores é uma tarefa difícil, arriscada e pouco valorizada. Trabalhadores do setor são alvo constante de criminosos que usam armas cada vez mais potentes

agosto 15, 2019 às 17:46 - Por:

Eles encaram uma rotina de risco e estresse constante. São expostos a situações de violência que deixam marcas no corpo e na mente. O sequestro da esposa e das duas filhas de um motorista de carro-forte no município de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, revelou o perigo que circunda os profissionais e familiares de quem trabalha com transporte de valores. Um grupo criminoso fez a família do motorista refém na semana passada e exigiu como pagamento para libertá-la um carro-forte cheio de dinheiro.

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Para não ver a família morta, o homem estava disposto a obedecer às ordens dos criminosos e seguiu para a empresa. A alteração de comportamento dele chamou a atenção de colegas e superiores, que o questionaram sobre o que estava acontecendo. O motorista, então, revelou o crime e a polícia foi acionada pela empresa. Horas depois, os assaltantes desistiram da ação e libertaram a mulher e as duas crianças.

Situações como essa e as constantes investidas contra carros-fortes têm deixado, cada vez mais, os vigilantes doentes. O Sindicato dos Vigilantes e Empregados de Transportes de Valores e Escolta Armada de Pernambuco (Sindfort-PE) não tem números oficiais, mas aponta que muitos trabalhadores estão afastados das funções por problemas psicológicos. Os trabalhadores relatam que as empresas de transporte de valores pernambucanas não oferecem assistência nem acompanhamento psicológico aos funcionários.

De acordo com o Sindfort-PE, até esta quinta-feira (15), cinco carros-fortes foram alvo de criminosos em Pernambuco. No ano passado, houve 11 crimes do mesmo tipo. Em 2017, foram registradas 20 ocorrências.  Entre as mais recentes estão a que resultou na morte de um vigilante e deixou outro ferido. O crime aconteceu no dia 13 de fevereiro numa das avenidas mais movimentadas do bairro do Pina, na Zona Sul do Recife. Os profissionais estavam na porta de uma agência bancária quando foram abordados.

Em março, um vigilante e um cliente de um banco ficaram feridos durante o roubo de um malote de dinheiro do carro-forte em frente a uma agência bancária no Centro de Abreu e Lima, no Grande Recife. A troca de tiros entre assaltantes e vigilantes causou pânico nas pessoas que estavam no interior e do lado de fora da agência. “Os vigilantes precisam de melhores condições de trabalho e armas mais potentes para enfrentar a criminalidade”, destaca o presidente do Sindfort, Cláudio Mendonça.

“Levei tiros, passei por assaltos e perdi alguns colegas”

O cotidiano de quem trabalha com transporte de valores é puxado e estressante. Quem afirma são os próprios vigilantes. Os veículos não têm banheiro e as empresas não oferecem água para consumo dos profissionais. “A gente se vira como pode. Quando para em algum cliente para deixar ou recolher dinheiro, a gente aproveita para ir ao banheiro e beber água. Mas nem todos clientes gostam quando a gente pede água a eles”, relata um vigilante.

Aos 54 anos, Gilson Pereira da Silva está aposentado. Depois de quase 20 anos trabalhando dentro de carro-forte, ele conta que adquiriu problemas psicológicos e toma vários medicamentos todos os dias, inclusive controlado. “Trabalhando com carro-forte, eu perdi minha saúde. Levei tiros, passei por assaltos e perdi colegas. Fui aposentado por invalidez após um psiquiatra atestar que eu não tinha mais condições de trabalhar com arma. Cheguei ao ponto, várias vezes, de querer matar pessoas que trabalhavam comigo. Agora, estou na luta para conseguir minha aposentadoria integral”, desabafa Gilson, mostrando a sacola de remédios.

Gilson Pereira vive à base de remédios e se emociona ao falar da perda de amigos. Foto: Rafael Reynaux/OP9

Gilson Pereira vive à base de remédios e se emociona ao falar da perda de amigos. Foto: Rafael Reynaux/OP9

Depois de cinco anos atuando em carro-forte, o vigilante Ernane Alves de Almeida, 37, passou a trabalhar assustado depois de sofrer uma tentativa de assalto. “Os criminosos estavam com armas muito mais potentes que as nossas e só eu estava do lado de fora do carro-forte na hora da investida. Graças a Deus, eu consegui entrar e escapamos do assalto. Quando o responsável pela empresa chegou na delegacia ainda disse que a gente deveria ter reagido porque os bandidos deveriam estar com armas de brinquedos. Ele foi repreendido pelo delegado”, recorda Ernane.

Na função de fiel há mais de cinco anos, um vigilante que está afastado do trabalho e preferiu não se identificar conta que já escapou de duas tentativas de assalto na Zona Sul do Recife. Ele também reclama da falta de apoio das empresas de transportes de valores. “Não temos nenhum suporte psicológico e trabalhamos com equipamentos defasados. Além disso, as armas não têm manutenção”, declara.

Qual a função de cada homem que trabalha em carro-forte?

Trabalhar dentro de um carro-forte exige agilidade dos profissionais. Mas o trabalho desses homens não começa apenas quando o carro deixa a empresa para levar ou recolher malotes de dinheiro ou outros tipos de bens. Além das pessoas que trabalham na linha de frente, existem os funcionários que são responsáveis pela liberação dos veículos, pela indicação das rotas, liberação das senhas do cofres, entre outras funções.

Dentro do carro, trabalham quatro profissionais com funções específicas. O motorista, o fiel e dois escoteiros. Todos eles trabalham armados. Além de ter a função de guiar o veículo, o motorista também é a pessoa responsável por guardar o fiel quando os dois escoteiros descem para avaliar o local onde os malotes serão deixados ou recolhidos.

O fiel é o homem que desce do carro-forte segurando o malote. Já os escoteiros são os profissionais que descem primeiro do carro para monitorar todo o ambiente. O fiel só desce do veículo quando recebe a informação de que está tudo sob controle do lado de fora. “Já conseguimos evitar vários assaltos observando que havia situação suspeita durante a chegada do carro-forte. É uma tensão constante”, relata o vigilante aposentado Gilson Pereira.

Todos os carros-fortes possuem uma câmera de vídeo traseira. Ela existe porque o cofre bloqueia a visão que o motorista tem da retaguarda. Então, a tela no painel exibe as imagens captadas pela câmera. O equipamento serve como espelho retrovisor e permite ao motorista identificar se o carro-forte está sendo seguido por algum veículo.

Wagner Oliveira

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