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Saiba como a privatização da Petrobras pode atingir o seu bolso

Geólogo Guilherme Estrella, considerado o Pai do Pré-Sal, aponta a importância de um projeto de desenvolvimento em consonância com a sustentabilidade e de controle operacional brasileiro

novembro 6, 2018 às 21:04 - Por:

Considerado o Pai do Pré-Sal, o geólogo Guilherme Estrella detalhou os riscos da privatização da Petrobras para a soberania nacional. Foto: Ivaldo Bezerra/Adufepe/Divulgação

Guilherme Estrella detalhou os riscos da privatização da Petrobras para a soberania nacional durante o II Congresso UFPE em Debate. Foto: Ivaldo Bezerra/Adufepe

A Petrobras fechou o terceiro trimestre do ano com um lucro líquido de R$ 6,6 bilhões, resultado mais de 2.300% superior aos R$ 266 milhões obtidos no mesmo período no ano passado. A estatal encerra os primeiros nove meses do ano com um lucro líquido de R$ 23,6 bilhões, crescimento de 371% em relação a igual período de 2017. O pré-sal, a menina dos olhos da indústria petroquímica, bateu o recorde na produção nacional de óleo e gás no mês de setembro, segundo dados divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis nessa segunda-feira (5). Agora, o Governo Federal quer urgência na votação da cessão onerosa do pré-sal. E, nas palavras do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), o futuro é a privatização. Difícil de entender? Calma, vamos te ajudar!

Você pode até desconhecer o valor do barril de petróleo, que, inclusive, é cobrado em dólar mesmo sendo extraído no Brasil, mas certamente sente no bolso o peso dessas variações. Ao abastecer o carro e ver o aumento do preço na bomba, ao pagar a passagem do ônibus, que é reajustada anualmente, e até mesmo na hora de fazer o almoço da família. O consumidor é atingido diretamente pelas oscilações econômicas por trás da exploração dos recursos naturais. O pré-sal está entre as mais importantes descobertas do mundo na última década. Fonte para energia e, consequentemente, desenvolvimento industrial, ele é encontrado em diversos estados do país. Essa província de exploração, genuinamente brasileira, é composta por grandes acúmulos de óleo leve, de excelente qualidade e com alto valor comercial. Uma realidade que nos coloca em uma posição estratégica frente à grande demanda de energia mundial.

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Considerado o Pai do Pré-Sal, o ex-diretor da Petrobras, o geólogo Guilherme Estrella, veio ao Recife, nesta terça-feira (6), participar do II Congresso UFPE em Debate, promovido pela Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (Adufepe), e fez o alerta. “Nós perdemos o controle de um negócio estratégico e básico para a vida de todo cidadão. Se for concretizado, vamos nos tornar um conglomerado heterogêneo de investimento estrangeiro”. A preocupação está ligada ao plano de governo de privatização anunciado pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, e que deu os primeiros passos ainda na gestão Temer. “Os países mais desenvolvidos do planeta são autossuficientes em energia. Petróleo é fator de segurança e soberania nacional. Quando você tem responsabilidade pelo que acontece, a cada momento aproveita a oportunidade do processo de produção para introduzir melhorias. É assim que a indústria funciona. Com a retirada da operação única da Petrobras, o que vai acontecer é que vão retirar o máximo no menor prazo para se ter mais lucro, e o futuro a Deus pertence”, disparou.

Ainda de acordo com o especialista, a privatização pode ser fatal para o pré-sal. “Ela interrompe um projeto. A partilha é importante porque o óleo pertence ao país e ao governo, mas nós não teremos o que falta para iniciar um processo de industrialização com inovação brasileira. Quando indústrias estrangeiras entrarem no negócio, a produção será para atender a demanda de energia dos países de origem. O pré-sal deve ser usado em um plano de governo escalonado a longo prazo. Ele nos dá segurança para investirmos em equipamento e em núcleos de inteligência, introduzindo as universidades brasileiras nesse processo, e avançando por 50 anos”, assegurou.

O pré-sal veio cobrir essa lacuna que nós temos de projeto de desenvolvimento autônomo pelos próximos 50 anos. Se continuar essa política que está nos jornais e que já foi praticada nesse governo que assumiu a direção do Brasil, nós teremos realmente perdido a maior oportunidade de sermos uma superpotência. Ficaremos submetidos ao grande interesse capitalista continental e seremos saqueados por interesses não brasileiros.

Guilherme Estrella
Ex-diretor da Petrobras

Para que fosse possível descobrir essas reservas naturais e operar com eficiência em águas profundas, foram desenvolvidas tecnologias próprias em parceria com fornecedores, universidades e centros de pesquisa. Foram contratadas sondas de perfuração, plataformas de produção, navios e submarinos com recursos que movimentam toda a cadeia da
indústria de energia. “Um operador único do consórcio é que decide o equipamento a ser utilizado e até mesmo o projeto de engenharia. Uma empresa estrangeira não terá entrosamento com as universidades brasileiras, por exemplo, e nem terá a mesma disposição para inseri-las, privilegiando sempre os centros de pesquisa internacionais. As empresas de fora ganham dinheiro tirando a Petrobras da operação única, pois o custo operacional é ressarcido ao operador em óleo de petróleo. Atualmente, nós temos o menos custo do mercado. Imagina como pode ficar daqui para frente”, ponderou Estrella.

Considerado o Pai do Pré-Sal, o geólogo Guilherme Estrella detalhou os riscos da privatização da Petrobras para a soberania nacional. Foto: Ivaldo Bezerra/Adufepe/Divulgação

Para Guilherme Estrella, é preciso defender os recursos naturais do país. Foto: Ivaldo Bezerra/Adufepe

O que você precisa saber sobre a exploração do pré-sal

O que é o pré-sal?
O pré-sal é uma área de reservas petrolíferas encontrada sob uma profunda camada de rocha salina, que forma uma das várias camadas rochosas do subsolo marinho. As reservas do litoral do país são as mais profundas, onde já foi localizado petróleo em todo o mundo. Nelas, temos óleos raros e com quantidade imensa de gás, que somos carentes. Até hoje, temos que importar gás para gerar eletricidade. O pré-sal tem gás à vontade e, mais do que isso, é rico em matéria-prima petroquímica e de fertilizantes. Outros insumos dos quais somos carentes. Para você ter ideia, somos os segundos maiores produtores de alimentos do planeta, mas importamos 80% dos nossos fertilizantes. Até o comércio está sendo desnacionalizado, é só observar as redes de supermercado, são Walmart, Carrefour e muitos outros. Hotéis estrangeiros estão em todo o litoral brasileiro. Estamos vendendo as nossas terras.

O que justifica o alto custo dos combustíveis e do gás de cozinha se temos a maior província de pré-sal do planeta?
Quando assumimos, a Petrobras já estava fragilizada por governos federais anteriores, porque já se falava sobre privatizações. Nós assumimos com a orientação do governo de recompor o que a gente chamava de empresa integrada de energia. Com a operação única, furamos o pré-sal e retiramos, nessa fase inicial, o máximo de amostras diretas. Foi uma operação caríssima. Nenhuma empresa entrou. Gastamos muito, mas houve o desenvolvimento geocientífico. Antes, era tudo subdividido em unidades de negócio. Essas mesmas unidades competiam entre si para a venda de produtos. Até o jurídico era espalhado por todo o país. Nós reintegramos a companhia no sistema produtivo de petróleo e gás natural e criamos uma estrutura cíclica. O sistema todo era estável e compensava o alto custo de um lado com as vendas nos outros compensando tudo como numa balança. No final, o consumidor tinha o menor preço assegurado. Não somos os melhores geólogos e engenheiros do mundo, mas com o monopólio estatal quem entende do Brasil é a Petrobras. A experiência é nossa e nenhuma empresa sabe como fazer isso funcionar sem repassar o custo para a população. Temos o menor preço do barril de petróleo. Acontece que o sistema todo tem que ser sustentado e, novamente, estão esquartejando a empresa, dissociando os elos. A exploração e produção do pré-sal são mais lucrativas. A empresa fica com a produção do pré-sal, que tem maior lucratividade, e o restante é fatiado. Por isso, cobram até R$ 80 no botijão de gás, por exemplo.

O Brasil é capaz de explorar o pré-sal sem capital estrangeiro?
Nós estamos falando de um projeto escalonado de desenvolvimento. O Brasil é o quinto maior território emerso do mundo, 10% de todo o oxigênio da atmosfera vem da Amazônia, temos a mais extensa rede hidrográfica do planeta e, além disso, temos a maior biodiversidade. Se pararmos para pensar, temos a matriz energética mais equilibrada  do planeta, e todos os países fizeram riqueza com base em energia. É a base para qualquer desenvolvimento industrial. Petróleo é questão de segurança e soberania nacional para todo o mundo, tem que ser no Brasil também. Estamos falando de um formato que não vai eliminar a empresa privada. A partilha é uma coisa importante, mas deve ser feita com o controle brasileiro. É preciso privilegiar as empresas nacionais. A maioria das empresas estatais que nós temos vieram de indústrias estrangeiras que passaram por um processo de nacionalização. São raras as que não são assim, como a Petrobras e a Embrapa. A Petrobras foi fundada pelo Estado brasileiro com herança do Conselho Nacional de Petróleo. O processo está desequilibrado, e a perda disso compromete a estrutura da companhia e também o projeto de país a longo prazo. Não queremos eliminar o investimento de empresas privadas, mas é preciso abrir espaço para o que é nosso. Para se ter uma ideia, quando nós descobrimos a Bacia de Campos, quem mais entendia sobre o reservatório era a Universidade do Texas. Temos que colocar um freio para que as coisas não se transformem em ameaças. A ideia de privatizar a estatal é desesperadora.

O que pode ser feito para barrar essa exploração internacional?
Primeiro, existe uma ação imediata de defesa do patriotismo. Há uma clara indicação de que a democracia brasileira está em risco e não é de agora. A própria prisão de Lula (ex-presidente) é a prova disso. A Justiça brasileira não está funcionando. A prisão de um homem sem provas é terrorismo do Estado, significa a extinção da segurança jurídica de qualquer cidadão. Agora, precisamos formar grupos de defesa com todo mundo e depois discutimos as questões menores.

Qual a ameaça que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, exerce para os recursos naturais do país?
O governo eleito é confuso em suas projeções e precisamos pensar em ações para a hora em que ele se instalar. Pelas declarações, estamos diante de uma tragédia ambiental. Ele quer reduzir o poder do Estado e privatizar tudo. Os recursos naturais serão entregues a empresas estrangeiras representando seus países. Vamos perder o controle do Brasil. Ele não tinha o direito de fazer isso. Estamos falando de um patrimônio natural que pertence a nós. Era para se fazer um plebiscito ou algo do gênero antes de uma decisão como essa. O pré-sal não se descobre em qualquer país do mundo. O Brasil vai ser saqueado mesmo tendo um mercado interno riquíssimo. A reação precisa ser rápida porque o sistema de produção é gigantesco e estamos falando de um produto estratégico e que precisa ser propriedade de gestão do Estado.

Saiba como é feita a composição do preço de venda para o consumidor
Composição de preços da gasolina para o consumidor. Fonte: Petrobras

Composição de preços da gasolina. Fonte: Petrobras

Gasolina

O cálculo é baseado nos preços médios da Petrobras (gasolina A) e nos preços médios ao consumidor final (gasolina C) em 13 capitais e regiões metropolitanas brasileiras.

Período da coleta: 21/10/2018 a 27/10/2018
Composição: 73% gasolina A e 27% Etanol Anidro*
* Observação: desde o dia 16 de março de 2015, o teor de álcool anidro na gasolina comum e aditivada é de 27%. O teor adicionado à gasolina premium é de 25%.

Elaboração: Petrobras a partir de dados da ANP e CEPEA/USP

Composição de preços do diesel para o consumidor. Fonte: Petrobras

Composição de preços do diesel. Fonte: Petrobras

Diesel

Dados baseados na média dos preços do diesel ao consumidor das principais capitais do país.

Período da coleta: 21/10/2018 a 27/10/2018
Composição: 90% de diesel e 10% de biodiesel
A parcela das margens de distribuição e revenda é estimada

Elaboração: Petrobras a partir de dados da ANP

Composição de preços do gás de cozinha para o consumidor. Fonte: Petrobras

Composição de preços do gás de cozinha para o consumidor. Fonte: Petrobras

Gás Liquefeito de Petróleo

É o popular gás de cozinha. Dados baseados na média dos preços do GLP ao consumidor das principais capitais.

Período da coleta: 21/10/2018 a 27/10/2018
A parcela das margens de distribuição e revenda é estimada

Elaboração: Petrobras a partir de dados da ANP

Votação de cessão onerosa do pré-sal

De acordo com o Senado, o Governo Federal tentará aprovar o pedido de urgência para votar, já nesta quarta-feira (7), o projeto da cessão onerosa (PLC 78/2018), que pode garantir uma receita de R$ 100 bilhões para a União com a venda, pela Petrobras, do excedente do petróleo extraído do pré-sal. Para o vice-líder do governo, senador Fernando Bezerra Coelho (MDB–PE), um acordo ainda é possível apesar das resistências da oposição.

II Congresso a UFPE em Debate
Conferência de abertura reuniu dirigentes da Adufepe, a vice-governadora eleita Luciana Santos. Foto: Ivaldo Bezerra/Adufepe/Divulgação

Conferência de abertura reuniu dirigentes da Adufepe, a vice-governadora eleita Luciana Santos. Foto: Ivaldo Bezerra/Adufepe/Divulgação

Para discutir o papel da universidade em meio à crise sociopolítica que o Brasil enfrenta, a partir desta terça-feira (6), a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco abre espaço para o II Congresso UFPE em Debate. Com convidados nacionais e internacionais, o evento, que é gratuito, pretende reunir a comunidade acadêmica para discutir a função da instituição num contexto amplo, destacando a relação da universidade com a ciência, tecnologia, cultura e arte. A abertura teve a participação do geólogo Guilherme Estrella, ex-diretor da Petrobras. As atividades seguem até sexta-feira (9) com o tema “Universidade de Ideias e Ideias de Universidade”, no campus Recife da Universidade Federal de Pernambuco, na Cidade Universitária.

“O primeiro congresso UFPE em Debate foi realizado em 1992 em uma conjuntura totalmente diferente do que temos hoje. De lá para cá, tivemos mudanças no perfil da sociedade. No contexto de pós-eleição, estamos em uma situação de alerta máximo em defesa da universidade pública gratuita e de qualidade. Estamos num momento que requer a unidade de todos que sabem que a educação, a ciência e a tecnologia são fundamentais para a soberania nacional”, destacou o presidente da Adufepe, professor Edeson Siqueira.

Adaíra Sene

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