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SOLIDARIEDADE

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Após filha cometer suicídio, pai se dedica a evitar novos casos

Conheça a história de Roberto Maia Filho, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV)

setembro 21, 2019 às 09:08 - Por:

Antes de entrar na sede pernambucana do Centro de Valorização da Vida (CVV), Roberto Maia Filho, 56 anos, sempre deixa na porta o que ele chama de “pacotinho de emoção”. O conteúdo imaginário é recheado de traumas pessoais, com peso maior para a perda precoce da filha Jéssica, que cometeu suicídio em 2007, aos 14 anos de idade. Há dois anos, os filhos mais velhos, hoje com 31 e 29 anos, se envolveram em uma briga de bar que resultou na morte de um homem e foram presos.

Após uma década buscando terapias, dinâmicas de grupo e outros caminhos para aplacar a dor, Roberto decidiu transformar o luto familiar em instrumento de solidariedade. Comovido com a ajuda que recebeu de amigos, resolveu retribuir na mesma moeda e abraçou uma rede de apoio que atua como anteparo afetivo de pessoas com comportamento suicida. “Eu não conseguia ouvir essa palavra. Hoje, falar de suicídio me motiva”.

Foto de aquivo mostra Roberto e a filha Jéssica, que cometeu suicídio quando tinha 14 anos. Foto: Arquivo pessoal / Roberto Maia Filho

Foto de aquivo mostra Roberto e a filha Jéssica, que cometeu suicídio quando tinha 14 anos. Foto: Arquivo pessoal / Roberto Maia Filho

Foi dessa forma que ele chegou ao posto do CVV no Recife, instalado em um apartamento de três quartos no bairro da Boa Vista, onde dedica a maior parte de sua vida a quem pretende dar cabo da própria existência. “Quando eu saio do centro, o pacotinho da emoção já está mais leve. Sempre que eu escuto os outros, eu também consigo esvaziar a minha dor”.

Em pouco tempo, tornou-se uma das vozes mais ativas na desmistificação do suicídio e passou a integrar um grupo de 52 voluntários locais que atendem, geralmente por telefone, potenciais vítimas através de uma central mantida pela direção nacional da ONG. Em plantões que duram cinco horas, recebem ligações de todas as partes do país e tentam confortar e, sobretudo, ouvir as angústias alheias sem prejulgamentos.

As conversas seguem sempre um código de conduta, no qual a identidade dos interlocutores é mantida em sigilo. Os voluntários não têm ideia de quantas pessoas já atenderam ou quantas mortes evitaram. Os custos internos são mantidos por doações e por uma cota arrecadada entre os próprios voluntários.

Em pleno Setembro Amarelo, campanha de prevenção criada pelo CVV para dar visibilidade aos casos Brasil afora, Roberto corre contra o tempo para evitar a escalada de um fenômeno que cresce na escuridão da desinformação.

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Somente em Pernambuco, 4.159 tentativas de suicídio foram detectadas pela Secretaria Estadual de Saúde entre os anos de 2015 e 2018. Os registros do último ano (1.885) quadruplicaram em comparação com o primeiro ano (475). Em 2017, 441 óbitos por suicídio foram registrados no estado.

Roberto dá palestras sobre suicídio e é voluntário de uma rede de prevenção. Foto: Rafael Reynaux / OP9

Roberto dá palestras sobre suicídio e é voluntário de uma rede de prevenção. Foto: Rafael Reynaux / OP9

No mês em que a causa está na vitrine, Maia põe um colete amarelo na mochila e segue na própria moto até escolas, empresas e órgãos públicos para dar palestras sobre suicídio. Chega a participar de três eventos em um único dia, quando deixa de lado as atividades como jornalista de um site sobre motos e o bico como motoboy de um aplicativo de entregas.

Nesses encontros, Roberto tenta suavizar um assunto pesado, mas procura falar sobre morte com clareza e naturalidade. Quando as conversas engatam e o público interage, ele não se furta em contar sobre a perda da filha caçula, que deixou um bilhete para a mãe informando apenas que estava indo embora.

A mãe de Jéssica, fruto do segundo casamento de Roberto, chegou a cortar os pulsos. “Se a dor de enterrar o filho é muito grande, a de enterrar um filho que se matou é maior porque a gente carrega uma culpa imensa. Eu me culpava, culpava todo mundo, culpava Deus, discutia, xingava. Esse processo levou muito tempo até eu entender que não existe culpa”.

André Duarte

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