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Todo Duro nocauteia baiano em noite sem nenhum glamour – nem despedida

Após vitória, ainda em cima do ringue, o já lendário pugilista pernambucano deixou em aberto a possibilidade de voltar a lutar novamente

Janeiro 16, 2019 às 12:46 - Por:

O nocaute no terceiro round se dá com um gancho de direita que deixa o baiano Sérgio “Pestinha” de joelhos no ringue. Supercílio aberto, o adversário de 43 anos, e cartel modesto, sangra enquanto é atendido pela equipe médica. Pouco depois, o árbitro abre novamente a contagem. Já é perto de meia-noite quando ele ergue os dois braços em sinal de encerramento e confirma a vitória a Luciano Torres, o Todo Duro. O último ato, para delírio do pequeno público presente, de uma noite de terça-feira (15) sem nenhum glamour no Clube Português do Recife.

O palco é o mesmo que ajudou a construir a carreira de um dos boxeadores mais carismáticos do país. No total, foram 71 combates até aqui. A vitória por nocaute técnico deveria ser o ponto final da trajetória iniciada em 1990. Mas aos 52 anos – talvez 55, como deixou escapar no vestiário – o já lendário pugilista, ainda em cima do ringue após a vitória, deixa em aberto a possibilidade de voltar a lutar.

A depender das circunstâncias, “a luta de despedida de Todo Duro” pode vir a ser ignorada sem cerimônia. Já faz tempo que a questão desportiva, o critério técnico, deixou de ser balizador. Com o passar dos anos, Todo Duro virou uma marca. Se houver potencial de público, haverá sempre a chance de um novo combate.

Todo Duro ergue os braços após aquela que pode ter sido sua última vitória no Clube Português: Foto: Rafael Reynaux/OP9

Todo Duro ergue os braços após aquela que pode ter sido sua última vitória no Clube Português: Foto: Rafael Reynaux/OP9


Em agosto de 2015, “A Luta do Século”, sua última aparição em cima do ringue, lotou as dependências do mesmo Clube Português. Na ocasião, cerca de cinco mil pessoas prestigiaram o evento, um sucesso que relembrou o auge da rivalidade fomentada com o eterno rival baiano Reginaldo Holyfield, entre meados da década de 1990 e a primeira metade dos anos 2000, quando os dois enchiam até mesmo ginásios de grande porte, em Pernambuco e na Bahia. “A Luta do Século” também serviu como locação para o filme de mesmo título, dirigido pelo cineasta Sergio Machado, e premiado em importantes festivais do país.

Aposta de risco

Desta vez, o cenário era bem diferente. A começar pelo público presente, modesto. Este sim, o fator que pode ter um peso decisivo para, de fato, decretar oficialmente o fim da carreira de Todo Duro. O responsável pela empreitada de colocá-lo mais uma vez em cima o ringue foi o amigo e árbitro profissional de boxe Genildo Gomes. Sem nenhuma cota de patrocínio, foi Genildo quem bancou todos os custos para que a luta pudesse acontecer. Uma aposta arriscada. “Muita gente me chamou de doido”, conta.

Um pessimismo em relação ao potencial de negócio do evento que no entanto fazia todo sentido, por diversos fatores. Mas por volta das 18h, Genildo, que sequer se considera um empresário do ramo, ainda se mostrava otimista quanto à possibilidade de comparecimento de um bom público ao local – inicialmente, a luta principal estava programada para as 21h. “Sei do risco, mas eu ainda acho que Duro enche isso aqui hoje. O que digo é o seguinte: independente de qualquer coisa, eu quis dar essa última luta a ele. Fico até emocionado ao falar de Todo Duro”, justifica Genildo, organizador do evento, árbitro da luta, amigo pessoal e agora também empresário de Todo Duro.

Como negócio, o sucesso do evento dependia de uma bilheteria que não veio. Com ingressos a R$ 30 (pista), R$ 50 (cadeira vip) e R$ 800 (camarote para 10 pessoas), valores dentro dos padrões, o movimento foi fraco. Não mais de 300, 400 pessoas estiveram por lá. Gente como o mecânico industrial Felipe Alves, 35 anos, que trabalha em Suape, e mesmo tendo saído de casa às quatro da manhã, ao largar do serviço seguiu direto para o Clube Português.

O sonho de criança

“Estive aqui há quatro anos na “Luta do Século”, quando realizei um sonho de criança. Cresci vendo Todo Duro na televisão. Lembro de assistir algumas lutas com meu pai. Aí, naquela última em 2015, fiz até uma camisa especial pra mim. Uns amigos que vieram comigo também quiseram. Não podia perder essa luta hoje. É a última do ‘homi’, né. Todo Duro representa muito.”

Os amigos de Felipe, desta vez também não vieram. Sozinho, diante do cenário de cadeiras vazias, o fã não escondia uma ponta de tristeza. “A gente fica triste, né. Da última vez isso aqui tava lotado, lembro de uma fila enorme lá fora”, descreve, um contraste absoluto ao vazio do momento em que ele se dirige a uma das bilheterias para comprar o próprio ingresso por volta das 19h.

No fim, porém, o semblante era de alegria e enorme satisfação. “Que luta! Valeu demais”. Nesta quarta-feira, Felipe, que deixou o Clube Português já depois da meia-noite, estava de pé às 4h. “Só tenho a agradecer por tudo, velho. Apertar a mão de Todo Duro era um sonho de criança”, escreveu, na mensagem em que enviou a foto de quatro anos atrás com a camisa personalizada que mandou fazer para “A Luta do Século’.

Fã do boxeador desde criança, Felipe Alves posa para a foto com Todo Duro no vestiário. Foto: Rafael Reynaux/OP9

Fã do boxeador desde criança, Felipe Alves posa para a foto com Todo Duro no vestiário. Foto: Rafael Reynaux/OP9


Sem dar detalhes sobre o cachê, o acordo de Genildo firmado com Todo Duro era dividir o lucro do evento, meio a meio. Se houvesse lucro, claro. A primeira preocupação era cobrir os custos. Antes de tudo, porém, o evento foi uma maneira de tentar ajudar o amigo de longa data. No auge da carreira, Todo Duro chegou a ter contrato assinado de mais de R$ 60 mil mensais. “Teve gente que ficou rica em cima dele”, aponta Genildo.

Hoje em dia, o ex-campeão mundial pela Federação Mundial de Boxe (FMB) – espécie de segunda divisão do boxe – sobrevive da ajuda de quem se acostumou a lhe estender a mão. A lista é extensa. Microfone em punho, ainda em cima do ringue, Todo Duro faz questão de ler os nomes, um a um, no discurso da vitória. Doutor Marcos Veras, doutor Racine, doutor Ricardo Brendel, coronel Toca, Maloca Bar, Gráfica Canal 3, Restaurante Paraíba, doutor Wilson Guimarães, doutor… e por aí vai. O de Genildo merece atenção especial nas entrevistas à imprensa.

“Depois de 35 anos lutando boxe, agora é que eu tô aprendendo”, ensina, em sua simplicidade, também sobre a vida. “Ainda posso lutar uns 10 anos se eu quiser. Boxe não tem isso de idade”, minimiza.

Sem nenhum glamour, e sem se importar com isso, o maior boxeador da história de Pernambuco lutou com um calção emprestado de última hora. Subiu ao ringue sem o tradicional roupão. Sem muitos cuidados. Sem, também, em quase todo o tempo de preparação no vestiário, jamais perder o bom humor. Sua marca registrada, assim como a mão pesada.

Lucas Fitipaldi

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