O portal do Sistema Opinião

POP9

Especial

pe

De queda em queda, ela aprendeu a se levantar e ir mais longe na vida

Aos 7 anos, Anecherly Keilla descobriu ser portadora de uma deficiência congênita e degenerativa que atrofia músculos e nervos. Hoje, ela é recordista brasileira do arremesso de peso paralímpico

outubro 11, 2019 às 12:49 - Por:

Nesta sexta-feira (11) em que se comemora o Dia do Deficiente Físico, o Portal OP9 dá início a uma série de reportagens sobre o tema. Serão perfis de três personagens e uma matéria final sobre a estrutura esportiva em Pernambuco. Começamos com a história de Anecherly Keilla, que nos mostra a importância de se superar limites a cada dia.

“Ficar em casa deprimida e se lamentando não era para mim”. As palavras fortes e o olhar decidido são uma marca da estudante de educação física Anecherly Keilla, 20 anos. Mas nem sempre foi assim. Quando tinha 7 anos, ela começou a cair. Mas não eram quedas comuns, como a de outras crianças da mesma idade. Elas aconteciam em uma frequência muito maior do que a normal.

Leia também:
O pesadelo que deu mais estímulo para acreditar na força da vida
O “livramento” que fez PM transformar perda em gratidão pela vida
Saiba onde pessoas com deficiência podem praticar esporte no Recife

Preocupados, os pais a levaram para uma consulta no neurologista, onde ela foi diagnosticada com a doença de Charcot-Marie-Tooth (CMT), também conhecida como atrofia fibular muscular (APM). A deficiência é congênita e degenerativa. “Isso atrofia meus músculos e meus nervos. Eu ando em uma marcha lenta. Os braços funcionam normalmente, mas não tenho força nas mãos e alguns objetos caem”, explica Anecherly.

Ela não teve que lidar com o fato de perder um membro de repente, mas isso não quer dizer que as coisas foram fáceis. “Como aconteceu na infância, para mim hoje é algo normal, mas sofri muito na escola. Eu sofria preconceito por causa das quedas frequentes. Foi a pior fase, várias vezes eu não saía no intervalo e chorava no banheiro, com vergonha. Crescer foi desafiador”, recorda.

A vida de Anecherly começou a mudar quando ela foi apresentada ao esporte pelo pai, ele próprio um paratleta. “Meu pai tem a perna amputada e é atleta de basquete de cadeira de rodas. Eu me apaixonei, e depois comecei no atletismo. Só que depois precisei optar pelo segundo, que me ajudou a conseguir uma bolsa integral na faculdade”, afirma.

A vida de Anecherly começou a mudar quando ela foi apresentada ao esporte pelo pai, ele próprio um paratleta. Foto: YouTube/Reprodução

A vida de Anecherly começou a mudar quando ela foi apresentada ao esporte pelo pai, ele próprio um paratleta. Foto: YouTube/Reprodução

Mesmo com dificuldades nos membros superiores, Anecherly compete no arremesso de peso, lançamento de disco e lançamento de dardo na classe F-43. “É uma coisa louca. Tenho muita dificuldade de pegar o peso e lançar o dardo. Mas meus professores sempre estão fazendo treinamento de força. Eu arremesso do jeito que eu consigo”, diz ela.

E consegue tão bem que é a atual recordista brasileira do arremesso de peso e a segunda colocada no ranking do lançamento de disco. “Eu me desafio todos os dias. Acordo cedo, trabalho e estudo. Eu tenho uma vida normal, mesmo com todas as dificuldades. Se eu não tivesse conhecido o esporte, não teria conhecido as pessoas que conheci e nem viajado o Brasil”.

Esporte no sangue

Ser um esportista é herança de família para Anecherly. E além dela, outro parente seguiu os passos do pai como paratleta. É a irmã mais nova, Anirely Kezia. Anirely também é portadora da doença de Charcot-Marie-Tooth, mas com um grau mais avançado. Apesar de mais jovem, Anirely manifestou os sintomas antes da irmã. “Ela começou a cair primeiro e logo depois fui eu. As pessoas diziam que uma estava imitando a outra. Me levaram primeiro para fazer o exame e depois ela”.

Anecherly também compete no lançamento de dardo. Foto: YouTube/Reprodução

Anecherly também compete no lançamento de dardo. Foto: YouTube/Reprodução

“Ela tem mais dificuldade, as mãos ficam em formato de concha, a marcha dela é mais lenta e ela cai com mais frequência, por causa da fraqueza nas pernas”, explica Anecherly. E a disputa é acirrada em casa, já que as irmãs competem nas mesmas modalidades, além de Anirely ainda continuar jogando basquete em cadeira de rodas.

Entretanto, Anecherly não enxerga o fato de competir contra a irmã um problema. Pelo contrário. “Eu acho engraçado, porque quando é a minha prova ela me incentiva muito e eu faço o mesmo quando é com ela. É muito legal. A gente não se enxerga como rivais. Quando eu me classifico para alguma competição e ela não, ou vice versa, ficamos muito tristes, temos que viajar sem a outra”, finaliza.

Henrique Souza

Comentários

OP9

Receba nossa newletter

Com que frequência deseja receber o informativo: