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“O Sol Também é uma Estrela” faz romance com pitadas de crítica social

Com estreia para esta quinta (16), a adaptação do livro de Nicola Yoon para as telas é um filme romântico que, ao mesmo tempo, consegue tratar de questões sociais e étnicas que estão em debate nos EUA da Era Trump

Maio 15, 2019 às 10:01 - Por:

O cinema, especialmente o voltado para o grande público, experiencia várias “ondas”. A onda de filmes catástrofe, a onda de filmes de super-heróis, a onda de filmes de vampiros… Essas ondas vêm e vão, e muitas acontecem simultaneamente. Uma das ondas que estamos vendo nos últimos anos, por exemplo, é a de filmes baseados em romances best-sellers dirigidos ao público jovem-adulto.

Fazem parte desse grupo longas como A Culpa é das Estrelas (2014), Cidades de Papel (2014), Se Eu Ficar (2014), Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer (2015), Antes que Eu Vá (2017), Todo Dia (2018), Com Amor, Simon (2018), Para Todos os Garotos que Já Amei (2018) e Tudo e Todas as Coisas (2017), só para citar alguns dos mais populares. Este último não está nessa lista de graça: é a adaptação de um livro da escritora americana de ascendência jamaicana Nicola Yoon, que está emplacando outra adaptação nos cinemas, O Sol Também é uma Estrela, que estreia nesta quinta (16).

O filme tem tudo para ser mais um romance juvenil no cinema, mas tem elementos que o difere do resto da lista aí de cima. Tudo e Todas as Coisas tinha a mocinha doente, que por isso não pode ficar com o mocinho e todo o drama decorrente disso. Em O Sol Também é uma Estrela, a pegada é outra, a dificuldade que separa o casal tem mais a ver com questões sociais e étnicas que estão em debate nos Estados Unidos sob a Era Trump.

A trama ainda tem também um tom mais autobiográfico. Natasha Kingsley (Yara Shahidi) é da Jamaica, e mudou-se para os EUA ainda bem jovem (como Yoon), junto com seus pais, como imigrantes. Ela é estudiosa e pragmática, amante das ciências (como Yoon, que é formada em Engenharia Elétrica), e não acredita em amor ou destino. Mas Natasha tem um problema sério (e real para muita gente como ela): em 24 horas sua família será deportada, e ela terá que deixar Nova York, seu lar, para voltar à Jamaica. Seu pai foi pego numa blitz surpresa do Departamento de Imigração.

Do outro lado, temos Daniel Bae (Charles Melton), um jovem romântico, que adora escrever poesias. A família de Daniel também é de imigrantes, vieram da Coreia do Sul, mas como o rapaz e seu irmão mais velho nasceram nos EUA, eles têm residência permanente. Na tradição oriental, o coletivo vem antes do indivíduo, e por isso Daniel é pressionado a ir bem nos estudos para conseguir uma boa faculdade e tornar-se um médico.

Yara Shahidi em "O Sol Também é uma Estrela" (Warner Bros/Divulgação)

Yara Shahidi em “O Sol Também é uma Estrela” (Warner Bros/Divulgação)

Daniel têm uma entrevista que pode lhe render uma indicação para uma boa faculdade, bem no dia que conhece Natasha, que tem uma hora marcado com um advogado que pode lhe ajudar com o processo de deportação. Com algumas horas sobrando no que provavelmente é o último dia dela nos EUA, Natasha luta contra a deportação de sua família com a mesma força com que luta contra seus crescentes sentimentos por Daniel, que faz tudo o que pode para convencê-la de que estão destinados a ficar juntos.

A tática que Daniel usa é um método que já virou matéria na revista Times e meme na internet: um estudo feito pelo psicólogo Arthur Aron que diz que a intimidade entre dois estranhos pode ser acelerada ao fazer com que eles se perguntem uns aos outros uma série específica de questões pessoais. São 36 questões que prometem fazer qualquer pessoa se apaixonar pela outra, e Daniel só tem algumas horas para convencer a cética Natasha que isso pode funcionar, cientificamente.

A essa história de amor, a diretora Ry Russo-Young (que também fez Antes que Eu Vá) colocou mais algumas camadas de questões sociais atuais. Da cidade de Nova York, se vê muito mais as periferias e ruas, menos os cartões postais. E quando se vê seu característico horizonte cheio de arranha-céus, é quase sempre de um ângulo que parece que a cidade está caindo, se esvaindo pelos dedos de Natasha.

Yara Shahidi e Charles Melton em "O Sol Também é uma Estrela" (Warner Bros/Divulgação)

Yara Shahidi e Charles Melton em “O Sol Também é uma Estrela” (Warner Bros/Divulgação)

A tensão racial também está presente na trama e na estética do filme. O pai e o irmão de Daniel, embora tenham uma loja especializada em produtos para cabelo de mulheres afro-americanas, não aceitam muito bem sua relação com Natasha – que veem mais como uma distração para seu verdadeiro objetivo de se tornar médico. Escolher uma atriz negra e um ator coreano para protagonizar o filme foi uma decisão que veio direto do material original, mas Russo-Young foi além, e a não ser por um ocasional figurante fora de foco, no filme inteiro não se vê sequer um homem ou mulher branca-padrão-norte-americana.

O Sol Também é uma Estrela é mais um filme romântico, baseado num livro voltado para jovens adultos, que vem numa moda de adaptações do gênero. Mas também é um filme que toca em problemas atuais, e é ousado em sua diversidade e na forma com que trata esses alguns desses temas. É pra levar sua outra metade no cinema para se divertir, mas também pensar um pouco.

Renato Mota

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