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Polarização resulta em mais de 70 casos de violência no país

Tantos episódios do tipo motivaram a criação de serviços para mapear a intolerância no país. Também há páginas que se dedicam a compartilhar relatos das vítimas

outubro 11, 2018 às 15:40 - Por:

Arte: Keops Ferraz/OP9

Arte: Keops Ferraz/OP9

Desde o final da noite do último domingo (7), quando ficou definida a realização do segundo turno na eleição para presidente, os casos de violência por discordâncias políticas cresceram de forma assustadora no Brasil. Relatos de agressões físicas e verbais se tornaram frequentes. No Recife, o último episódio a vir à tona foi o ataque sofrido por uma servidora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que teve o pulso quebrado após uma discussão política em um bar e precisou passar três dias internada. A agressão aconteceu no domingo passado.

Tantos casos do tipo motivaram a criação de serviços para mapear a violência eleitoral no país. A Agência Pública realizou um levantamento das agressões ocorridas até a última quarta-feira (10) e constatou que ocorreram pelo menos 70 ataques nos últimos 10 dias. Segundo o estudo, foram 50 agressões cometidas por apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL), seis ataques contra os eleitores do candidato e 15 casos de natureza indefinida.

Também há páginas que se dedicam a compartilhar relatos das vítimas. É o caso dos sites Mapa da Violência e Vítimas da Intolerância. Os endereços reúnem histórias e falas reais de quem sofreu com a violência política no Brasil. “Estava com um amigo em um estabelecimento quando passaram três jovens e gritaram que Bolsonaro iria mandar matar os viados (sic)”, conta em uma das páginas um jovem bissexual que preferiu não se identificar.

“Publiquei no meu mural do Facebook que quem planta ódio, recebe ódio. Pessoas que me conhecem há 25 anos, homens, empresários, partiram com muitas agressões num bombardeio de grosserias e ameaças. Outro ex-amigo disse: ‘sua vagabunda comunista. Você também merece ser estuprada’. Foram horas de terror. Não durmo mais direito desde esse dia”, narra uma mulher de Alagoas.

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O jornalista Haroldo Ceravolo criou um mapa no Google com casos de violência registrados desde o dia 1 de outubro. Segundo ele, a ideia surgiu após ler e ouvir relatos de pessoas que estavam sendo ameaçadas por seus posicionamentos políticos. “No dia da votação os casos estouraram e comecei a ver que estava compartilhando no Facebook várias histórias preocupantes. Comecei a compilar as informações e o número de episódios foi muito maior do que eu esperava”, afirma.

O trabalho cresceu de tal forma que ele já começou a contar com a ajuda de colaboradores. Ele também diz se espantar com os relatos. “Há um discurso da polarização, que eu discordo, mas os casos são muito mais radicais do que eu esperava. Em muitas histórias as partes não chegam nem a discutir. Temo muito pelo que vai acontecer, eu nunca vi isso, porque normalmente os dias de eleição sempre foram menos violentos do que dias correntes. Em 2014, mesmo nos piores momentos de tensão não tivemos episódios de violência como estes”, se preocupa.

Haroldo acredita que os candidatos devem trabalhar para arrefecer os ânimos no país. “As pessoas devem sim pensar no que vai acontecer com elas nos dias de amanhã, mas acho que a principal obrigação é dos políticos. Um candidato não pode chegar e dizer que não tem como se responsabilizar pelos casos. É praticamente dar carta branca para atos desse tipo”, declara. Quem quiser denunciar algum episódio basta preencher o formulário online.

O que os candidatos dizem

Tanto Jair Bolsonaro quanto Fernando Haddad se manifestaram nas redes sociais sobre a onda de agressões. Bolsonaro disse não querer votos de quem pratica violência. “Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar”, disse no seu Twitter.

Fernando Haddad também lamentou os episódios no seu Twitter. “Essa escalada de violência tem que ter fim. Estamos recebendo denúncia de atos violentos em todo o país. Hoje uma jovem de 19 anos foi praticamente sequestrada por três apoiadores do Bolsonaro e teve uma suástica entalhada no seu corpo com um canivete. Isso precisa parar”, pediu.

Henrique Souza

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