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A onda Bolsonaro e a vitória do antipetismo

O novo presidente do Brasil falou a língua de mais de 57 milhões de brasileiros. Conexão que o PT perdeu

outubro 29, 2018 às 15:52

O antipestismo impulsionou a eleição de Jair Bolsonoro que derrotou o PT com mais de 55% dos votos válidos. Foto: Reprodução

Foi uma eleição exaustiva, pesada. Do início ao fim, marcada pela polarização e pela intolerância. Acabou. Democraticamente, mais de 55% dos eleitores que foram às urnas escolheram o candidato do PSL para Presidente da República.

Bolsonaro venceu em quatro das cinco regiões do país (só perdeu no Nordeste), praticamente sem tempo de TV no 1º turno, e com uma campanha biônica, ou seja, construída e solidificada nas redes sociais, pela internet. Praticamente não foi às ruas, não participou de debates, ainda assim cresceu e passou sobre Fernando Haddad como um rolo compressor. Diferença de quase 11 milhões de votos. Vitória robusta, convincente, embora amparada num partido pequeno.

Começou a pré-campanha 4 anos atrás. Lembrou disso em uma transmissão ao vivo logo após o resultado das urnas. E começou sozinho, ainda no PP, migrando depois para o PSL sob forte descrédito de políticos e do mercado – mercado este que o apoiou logo que Bolsonaro abraçou a pauta reformista.

Com um discurso pouco propositivo, Bolsonaro encontrou ressonância no desejo de mudança de quase 58 milhões de brasileiros e terreno fértil para crescer num movimento que praticamente virou partido político: o antipetismo. Avançou na corrida muito em função da rejeição ao Partido dos Trabalhadores. Muitos votaram nele para não votar no PT. Haddad tentou, mas foi engolido pela onda antipetista.

Há quem atribua a vitória de Bolsonaro ao compartilhamento avassalador das fakenews. O presidente eleito chegou a ser proibido tardiamente pelo Tribunal Superior Eleitoral, de citar o kitgay, uma das plataformas de seu discurso nos palanques. O Facebook tirou do ar 68 páginas e 43 contas tpró-Bolsonaro. Mas isso não desmerece o resultado. Ele foi eleito democraticamente porque conseguiu se comunicar com milhões. A maioria disse ele sim. Não há o que contestar.

Passados os ânimos e o clima de disputa, a missão de Bolsonaro agora é baixar a temperatura de um Brasil claramente dividido e inflamado. Como chefe de uma Nação, ele deve governar para todos e não apenar para a maioria.

Discurso da vitória
Bolsonaro agradeceu os votos recebidos. Foto: Reprodução

Com a Constituição Federal à vista, Bolsonora sinaliza para o respeito e garantias da Carta cidadã. Foto: Reprodução

Há muito o que destacar em dois discursos distintos: o da transmissão ao vivo para as redes sociais, e o discurso lido, planejado.

Vamos ao primeiro, improvisado no calor da emoção. Jair Bolsonaro lembrou que não tinha recursos de fundo partidário e manteve o tom da campanha quando atacou a mídia. Disse que foi perseguido. Fez críticas à esquerda e afirmou que “não podia continuar flertando com o socialismo, com o comunismo e o extremismo”, se referindo, claro, ao PT. Disse também que “todos os compromissos assumidos com as bancadas serão cumpridos”. Agradeceu o apoio e a confiança nele depositada. Mas não falou para todos. Se dirigiu apenas aos eleitores, e garantiu: “vamos mudar o destino do Brasil”. Como vai ser esse caminho é que são elas. Bolsonaro não deixou claro.

Já no discurso oficial, um tom mais ameno e republicano. Uma peça em três atos: o político, o ético e o econômico. O presidente eleito falou em enxugar a máquina e fortalecer os municípios. Não citou o Pacto Federativo, mas, em outras palavras, disse que o bolo tributário vai ser melhor dividido e que os “recursos vão direto do governo federal para municípios”. Essa aliás, tem sido uma das principais reivindicações de prefeitos do país inteiro. Outras frases que merecem atenção e dizem respeito ao que, segundo ele, é uma quebra de paradigmas:

1) “vamos desburocratizar e permitir que o empreendedor tenha capacidade de investir”;

2) “buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valores econômicos ao que é produzido no Brasil”;

3) “o déficit público primário precisa ser eliminado e convertido em superávit”.

As fórmulas para tais “mágicas” devem vir do guru econômico de Jair Bolsonaro, o Paulo Guedes, um dos nomes certos para a equipe ministerial.

O segundo ato que podemos destacar está no campo ético. Bolsonaro falou em verdade. Garantiu que esta vai pautar sua gestão. No campo político – o terciero ato – o discurso do novo presidente do Brasil vai de encontro ao que foi sustentado durante a campanha. Ele fez questão de falar em princípios constitucionais, dando a entender que, em seu governo vai respeitar a carta cidadã e as diferenças. Disse: “Liberdade é um princípio fundamental: de informar e de tecer opinião, política e religiosa, de fazer escolha e ser respeitado por elas.” E finalizou: “esse governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade.”

É o que todos esperam.

Conquistar o Nordeste é preciso?
No primeiro turno das eleições presidenciais, Bolsonaro perdeu em todos os estados do Nordeste, enquanto Haddad liderou e só perdeu para Ciro no Ceará. Arte: Keops Ferraz/OP9

No primeiro turno das eleições presidenciais, Bolsonaro perdeu em todos os estados do Nordeste, enquanto Haddad liderou e só perdeu para Ciro no Ceará. Arte: Keops Ferraz/OP9

Não houve um único Estado do Nordeste que deu vitória a Bolsonaro, ou seja, o cenário do 1º turno se repetiu  Na região, ele obteve inexpressivos 30,94% do total de votos válidos (Haddad recebeu 69,06%) mesmo se voltando para a região na reta final de campanha. Chegou a usar chapéu de cangaceiro no guia eleitoral. Não colou.

Será por que o nordestino não sabe votar? Pelo contrário. Explico. A hegemonia do Partido dos Trabalhadores no Nordeste encontra guarida nas políticas públicas implementadas pela gestão petista aqui. E não falo só dos programas sociais. Entram nessa conta a ampliação das Universidades Públicas na região, obras como a Transposição do Rio São Francisco e o apoio do PT à bancada federal nordestina, com a liberação de recursos que viabilizaram desenvolvimento econômico e social.

A dúvida que fica agora é: haverá retaliação aos governadores que trabalharam contra Bolsonaro? Cientistas políticos têm uma leitura pessimista. Cabe ao presidente eleito provar o contrário. Em conversa com Julian Lemos, deputado federal eleito pelo PSL e coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste ele garantiu que não. É como se daqui pra frente se passasse uma borracha nas diferenças.

Bolsonaro diz que pretende, como manda o artigo 3º da Constituição Federal, construir

r  um uma sociedade livre, justa e solidária, garantindo o desenvolvimento nacional, promovendo o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Veremos.

Projetos econômicos

O programa de governo de Jair Bolssonaro tem 81 propostas. Na economia, a ideia é definir o orçamento fedral com base em metas de cada área e não nos gastos anteriores. Não há detalhes. Outro ponto diz respeito à fusão de ministérios. O da Economia seria o principal, incorporando os ministérios da Fazemda Planejamento, Indústria e Comércio e a Secretaria do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI). O superministéiro teria ainda a participação do Banco Central, que terá total independência.

O programa fala em combater desperdícios e privilégios, mas também não indica um caminho. Traz apenas a ideia. A base do governo do Bolsonaro deve,  ainda de acordo com o programa, priorizar privatizações, concessões, venda de imóveis que pertencem à União. A ideia é reduzir em cerca de 20% o pagamento de juros  de uma dívida que em 2017 comprometeu R$ 400,8 bilhões do orçamento. Seguindo essa lógica, estatais vãos ser extintas. Quais são elas? Sobre isso paira uma série de dúvidas.

Para conquistar o apoio do Congresso em pauta tão polêmica, o caminho é dar à União o poder veto em relação à venda e controle mesmo em caso de participação minoritária nas ações. É o chamado golden share, ou ação de ouro. O BNDES deve ser o “fiador” do processo de desestatização. O que se quer com esse projeto é garantir o máximo pelos ativos.

Problema: de acordo com a Constituição Federal, os bens públicos são inalienáveis. Significa que não podem ser vendidos ao gosto do freguês porque não perencem ao gestor, mas ao povo. Ou seja, não basta vontade. O buraco é bem mais embaixo.

PT: e a mea-culpa?

Resultado de imagem para admitir errosNa política costuma-se dizer que quem tem dois palanques, tem nenhum. A esquerda sentiu o peso da própria divisão. Pulverizada, perdeu força. A direita cresceu na fraqueza dos adversários. O PT não perdeu só no primeiro e segundo turnos.

A derrota começou bem antes. Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado a 12 anos de prisão e encarcerado em Curitiba, colocou um projeto de poder acima de tudo. Lula esticou a corda até onde podia. Só no último dia do prazo eleitoral lançou o nome de Fernando Haddad como candidato a presidente com Manuela d’Ávila (PC do B) como vice.

Lula contava com sua popularidade e a transferência de votos. Ingenuidade ou cegueira? Talvez os dois ou nenhum desses fatores. De certo mesmo, de forma pragmática, o que podemos afirmar é que foi uma estratégia cheia de equívocos. Contra Haddad, o próprio Lula (mesmo que essa não fosse a intenção) e o tempo.

A campanha de Haddad ficou mais agressiva no segundo turno. Ganhou adesão de artistas, de políticos que historicamente fizeram oposição ao PT, de intelectuais, de gente do povo que assumiu a posição de cabo eleitoral. Tudo muito tarde. Bolsonaro já era um “gigante” a essa altura.

O PT morreu?
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O PT vai precisar ir para o divã e ressignificar relações internas e externas.

Não se depender de Fernando Haddad. O candidato derrotado nas eleições presidenciais falou para os eleitores tão logo soube do resultado do 2º turno e deu a entender que volta em 2022 sustentando as bandeiras que levantou na campanha: “nosso compromisso é um compromisso de vida com esse país. Reconhecemos cidadania em cada brasileiro. Não vamos deixar esse país para trás, vamos defender nosso ponto de vista, respeitando a democracia e as instituições”.

Haddad agradeceu os mais de 45 milhões de votos e aos partidos que estiveram com ele nessa batalha. Pediu respeito às minorias. Disse que vai “fazer uma oposição colocando os interesses do povo brasileiro acima de tudo”, que há muita coisa em jogo e admitiu que é preciso se reconectar com as pessoas.

Neste segundo turno, Haddad cresceu e caminhou sem Lula. Professor e gestor, fez da política o que chama de “profissão de fé”. Falou de coragem: “eu aprendi com meus antepassados a ter coragem para defender a justiça a qualquer preço. Todos os demais valores dependem dela”. E concluiu sua fala para a militância fazendo uma referência à profissão e à missão que abraçou: “verás que um professor não foge à luta”.

O PT perdeu esta eleição, mas Haddad sai maior que entrou e pode ser uma liderança importante no Partido nos próximos anos. Isso não exclui, no entanto, a autocrítica necessária (que não foi feita até aqui) e urgente. O PT vai ter de repensar suas relações internas e com a sociedade. Caminhar é preciso e esse passo passa pelo divã.

Em tempo 1

Em entrevista à BandNews FM Manaíra, Julian Lemos falou sobre sua atuação na Câmara Federal e a relação com o governo de João Azevedo (PSB) que fez campanha contra Jair Bolsonaro: “não espere de mim uma oposição raivosa. Vou trabalhar pela Paraíba”.

Em tempo 2

João Azevedo falou sobre a eleição de Bolsonaro. Disse: “que a gente possa ter o processo de divisão tão forte deixado de lado e partir para a reconstrução desse país. Eu torço para que a democracia seja plenamente restabelecida e a gente tenha, a partir de janeiro de 2019, um governo que tenha essa compreensão, que possa devolver ao Brasil a esperança acima de tudo e a certeza de melhores dias”.

Rejane Negreiros

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