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O curioso caso do deputado que teria votado contra a própria opinião

Resultado da votação das sobras orçamentárias na ALRN revela uma série de situações que chamam a atenção para a forma como os deputados se comportam atualmente

julho 12, 2019 às 16:31 - Por: Everton Dantas

Voto do deputado Albert Dickson garantiu empate na votação das sobras orçamentárias na ALRN. Foto: Eduardo Maia/ALRN

Voto de Albert Dickson (ao fundo) possibilitou derrota do governo na votação das sobras. Foto: Eduardo Maia/ALRN

O resultado da votação do dispositivo que previa a devolução das sobras orçamentárias dos Poderes na Assembleia Legislativa guarda uma série de curiosidades. Entre elas, o caso de um deputado que teria votado contra a própria opinião, que era de devolver as sobras orçamentárias ao Executivo.

Durante a votação, que aconteceu na quinta-feira (11), o placar entre os deputados chegou a ficar 11 a 10, favorável à devolução dos recursos dos Poderes. Neste momento, mesmo com todos os deputados presentes tendo votado, a sessão foi mantida aberta.

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Tudo para resgatar um deputado que havia se retirado do plenário. O grupo contrário à devolução teve então de ir atrás dele e fazê-lo retornar ao local de votação para possibilitar a mudança no placar.

Em tese, o deputado Albert Dickson (Pros) é considerado da bancada governista. E dia 5 de julho deu entrevista no Jornal do Dia, da TV Ponta Negra, falando sobre as sobras. Na opinião dele, expressa na entrevista, o dinheiro deveria ser devolvido. O deputado informou inclusive que essa opinião sua vinha desde o ano passado. Confira:

Na quinta-feira, após ser trazido de volta ao plenário, a mudança: foi dele – que era favorável à devolução do dinheiro – o voto que possibilitou o empate em 11 a 11. E foi esse empate que abriu caminho para “o voto de Minerva” do presidente Ezequiel Ferreira (PSDB), gerando a derrota do governo.

De acordo com o relato de uma pessoa que estava presente à sessão, no momento que retornou ao plenário, Albert Dicksson parecia não saber direito o que estava acontecendo. E optou por seguir o voto do presidente da Casa.

Segundo um deputado que participou da votação, em nenhum momento foi discutida a questão do Judiciário ou do Ministério Público. A briga foi mesmo entre deputados que defendiam a devolução e os contrários. Só para dar uma ideia, as sobras orçamentárias da ALRN em 2018 foram R$ 28,6 milhões.

Placar da votação das sobras revela o deputado que votou contra a própria opinião e outros detalhes. Foto: Nicole Tinoco/Cedida

Placar da votação das sobras orçamentárias na ALRN mostra como cada deputado se posicionou. Foto: Nicole Tinoco/Cedida

O deputado Albert Dickson foi procurado para falar sobre a mudança no voto. De acordo com informações repassadas ao blog Opinião e Poder RN, ele não falará sobre o assunto. O deputado faz parte da Mesa Diretora da ALRN. O espaço permanece aberto para qualquer manifestação.

A mudança de opinião é um direito do deputado. Independente de pertencer a bloco parlamentar que defendia o contrário, na votação. A devolução das sobras era uma das alternativas que o governo contava para ter folga financeira que ajudasse a pagar atrasados a servidores e fornecedores.

Outras curiosidades da votação das sobras orçamentárias

O líder da bancada governista, deputado George Soares (PR) não fez uma defesa enfática da devolução das sobras. Ele é membro da Mesa Diretora da Assembleia. Em outros tempo, um líder com perfil do ex-deputado Fernando Mineiro (PT), por exemplo, certamente ocuparia a tribuna para expor o caso à sociedade.

Outro deputado que andou de mãos dadas com a governadora durante a campanha e, em tese, compõe a bancada do governo, mas votou contra foi Souza Neto (PHS). Ele não pertence à Mesa Diretora da ALRN. Seu voto causou irritação ao governo e à bancada.

Os articuladores da votação pró-governo foram a deputada Isolda Dantas (PT) e o deputado Francisco do PT. Coube aos dois – com uma ajuda do chefe da Casa Civil do governo, Raimundo Alves – obter os votos favoráveis de Ubaldo Fernandes (PTC) e Eudiane Macedo (PTC). Ubaldo inclusive votou contra a devolução na Comissão de Finanças.

Deputado Kelps Lima teria ajudado na articulação para aprovar devolução. Foto: Eduardo Maia/ALRN

Deputado Kelps Lima teria ajudado na articulação para aprovar devolução. Foto: Eduardo Maia/ALRN

Críticos do governo votaram favoráveis à devolução dos recursos

Quem também ajudou nessa articulação pró-devolução foi o deputado Kelps Lima (SD), que é um dos principais críticos do governo Fátima Bezerra. Mesmo sendo crítico à administração, ele é favorável à devolução das sobras orçamentárias dos Poderes.

Os outros dois deputados do Solidariedade, Cristiane Dantas e Allysson Bezerra, que também são oposição à atual administração, votaram favoráveis ao Rio Grande do Norte. O mesmo posicionamento teve o deputado Hermano Morais, do MDB. O outro deputado do MDB, Nélter Queiroz, não votou.

Mais um voto que chamou a atenção foi o do deputado Coronel Azevedo (PSL). Mesmo sendo do partido do presidente da República, Jair Bolsonaro; e totalmente contrário ao PT, o parlamentar votou “sim” pela devolução.

O voto do Coronel Azevedo e de outros críticos do governo é um indício muito forte de que, afinal, as sobras orçamentárias não são uma “lenda urbana”, mas sim um dinheiro que poderia ajudar realmente as finanças públicas do estado.

A votação das sobras orçamentárias revelou que parte do grupo que supostamente apóia o governo Fátima Bezerra está plenamente sintonizada com as ideias do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, para quem a “modernidade é líquida” e nada é feito para ser sólido.

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