O portal do Sistema Opinião

POP9

A menos

rn

Aumento do desemprego e da inflação geram queda de 5,2% no consumo

De acordo com a pesquisa, esta é a primeira vez que há recuo nas compras de todas as cestas de produtos, com retrações em produtos básicos e de difícil substituição

Abril 14, 2019 às 20:30 - Por: Márcia de Chiara, da Agência Estado

Além de ir menos às compras, consumidor tem levado quantidade menor de produtos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Além de ir menos às compras, consumidor tem levado quantidade menor de produtos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Pressionado pelo aumento do desemprego e da inflação da comida e também pela queda na renda, o consumo de alimentos, bebidas, produtos de higiene e limpeza dentro da casa dos brasileiros sofreu um baque neste início de ano.

Em janeiro e fevereiro, houve uma queda de 5,2% no número de unidades de itens básicos comprados pelas famílias em relação ao mesmo período de 2018, aponta pesquisa da consultoria Kantar. Foi a primeira retração para o período em cinco anos.

Também foi a primeira vez desde o início da pesquisa, em 2014, que houve recuo nas compras de todas as cestas de produtos, com retrações importantes em produtos básicos e de difícil substituição.

Leia também:
Inflação para idosos superou inflação acumulada em 2018 pelo IPC

Entre os itens que mais contribuíram para a queda do consumo em unidades das respectivas cestas estão açúcar (alimentos), papel higiênico (higiene), leite de caixinha (lácteos), detergente em pó (limpeza) e cerveja (bebidas).

“Fiquei chocada com o resultado. É uma queda bem forte que ocorreu em todas as classes sociais e regiões do País”, afirma Giovanna Fisher, diretora da consultoria e responsável pela pesquisa.

Semanalmente, equipes da consultoria visitam 11,3 mil domicílios para tirar a temperatura do consumo a partir do tíquete de compra da família. A amostra retrata as compras de 55 milhões de domicílios ou 90% potencial de consumo do País.

Classe C foi a que mais retraiu consumo no bimestre

A classe C foi a que mais retraiu o consumo no bimestre e o interior do Estado de São Paulo, por concentrar uma grande fatia dessa população, foi a região que registrou a maior queda, seguida pelas regiões Norte e Nordeste.

O que chama também a atenção nos resultados é que, além de ir menos vezes às compras, a cada ida ao supermercado o consumidor levou uma quantidade menor de produtos para casa. Esse movimento traduzido em números significou uma queda de 2,2% na frequência de compras no bimestre em relação ao ano anterior e redução 5,7% no número de unidades adquiridas a cada compra.

Giovanna explica que até pouco tempo atrás a frequência permanecia estável ou apresentava um pequeno recuo. Mas quando o brasileiro fazia as compras ele levava para casa uma quantidade de produtos maior.

Antes, as pessoas compensavam com volumes médios maiores a ligeira redução na frequência de compras. Com isso, o volume total consumido se mantinha estável e agora, não

Dados nacionais de vendas dos supermercados confirmam esse movimento. A receita real de vendas acumulada no ano, que crescia 2,95% em janeiro ante o mesmo mês de 2018, desacelerou para 2,51% no primeiro bimestre, segundo a Associação Brasileira de Supermercados.

Na divulgação dos resultados no início do mês, João Sanzovo Neto, presidente da entidade, atribuiu parte do enfraquecimento no ritmo de vendas à lenta recuperação da economia e ao desemprego elevado.

Aumento do preço do açúcar foi um que contribuiu para a queda do consumo no Brasil. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Aumento do preço do açúcar foi um que contribuiu para a queda do consumo no Brasil. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Inflação de alimentos e bebidas explicam derrubada no consumo

A virada que houve na inflação de alimentos e bebidas explica, na opinião do economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Fabio Bentes, boa parte da freada nas compras. “A inflação vista por dentro mudou muito”, diz.

Alimentos e bebidas respondem por quase 25% dos gastos das famílias e são a maior fatia do orçamento. Ao longo de 2017 e parte de 2018, os preços dos alimentos e bebidas ajudaram a segurar a inflação geral. Enquanto a inflação, fechou 2017 em 2,95%, alimentos e bebidas tiveram deflação de 1,87%.

Em 2018, a inflação em 12 meses de alimentos e bebidas correu abaixo da inflação geral até outubro. A partir de novembro, a inflação de alimentos e bebidas acumulada em 12 meses superou a inflação geral, mês a mês, até atingir o pico em março. No mês passado, a inflação geral em 12 meses chegou a 4,58% e a inflação de alimentos e bebidas atingiu 6,73%, a maior variação em 12 meses desde dezembro de 2016 (8,61%).

O preço do papel higiênico, por exemplo, subiu em 12 meses até março deste ano 4,2%, segundo dados da inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Já em 12 meses até março do ano passado, o preço do produto estava estável.

O sobe e desce do preço do papel higiênico se repetiu em outro produto básico: o leite de caixinha. Em 12 meses até março deste ano, o preço do leite acumula alta de 10,8%, depois de registrar queda 9,1% em 12 meses até março do ano passado. “Foi uma mudança de preços da água para o vinho”, observa o economista-chefe da Confederação nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes.

Consumidor reduziu estoque doméstico de produtos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Consumidor reduziu estoque doméstico de produtos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Minha forma de agir mudou porque os preços estão muito altos”

A aposentada Suzana França, de 60 anos, chegou a estocar, no passado, cem garrafas de vinho em casa. Hoje ela tem apenas cinco. Suzana também cortou o estoque de cerveja e de outros itens, como os de higiene pessoal. Sabonete, antes, comprava quatro ou cinco. “Agora levo para casa dois: um para cada banheiro.”

O funcionário público aposentado, Francisco Carlos Barbosa, de 51 anos, também colocou o pé no freio nas compras. Ele conta que chegou a comprar pacote com cem rolos de papel higiênico. Mas como o preço subiu, hoje compra o que vai usar mesmo. “Quando acaba vou lá e compro de novo. Mas não faço mais estoque.”

Suzana conta que tinha em casa vários tipos de grãos: feijão branco, feijão preto, feijão carioca, lentilha e grão de bico. Hoje leva para casa dois ou três e quando acaba volta às compras “Não sou economista, mas a minha forma de agir mudou porque os preços estão muito altos em relação à minha renda e tenho de resolver o problema dentro da minha administração doméstica. É uma tática defensiva”, explica.

Comentários

OP9

Receba nossa newletter

Com que frequência deseja receber o informativo: