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Em crítica, Bolsonaro cita pai de presidente da OAB desaparecido durante a ditadura

“Se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele”, disse Bolsonaro em relação ao pai do pernambucano Felipe Santa Cruz

julho 29, 2019 às 16:33 - Por:

Felipe Santa Cruz, à esquerda, é filho de um desaparecido político da ditadura. Foto: Reprodução

Felipe Santa Cruz, à esquerda, é filho de um desaparecido político da ditadura. Foto: Reprodução

Aos dois anos de idade, o presidente de Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, perdeu o pai, o olindense Fernando Santa Cruz, que a época tinha 26 anos. Seus familiares não o enterraram. Dona Elzita, avó de Felipe, morreu há um mês, aos 105 anos, à espera de um momento que nunca chegou: sepultar os restos mortais do filho.

Assim como outros milhares de pessoas, Fernando foi um dos desaparecidos políticos da ditadura militar. Nesta segunda-feira (29), 45 anos após o desaparecimento de Fernando, o presidente Jair Bolsonaro (PSL), que já homenageou o torturador coronel Brilhante Ustra, usou a dor da perda para atacar a gestão de Felipe Santa Cruz a frente da entidade.

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“Um dia se o presidente da OAB [Felipe Santa Cruz] quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”, disse Bolsonaro para depois acrescentar: “Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar às conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco, e veio a desaparecer no Rio de Janeiro”, falou o presidente.

Integrante da Ação Popular Marxista-Leninista e militante do movimento estudantil, o pai de Felipe Santa Cruz foi preso por agentes do DOI-CODI, no Rio de Janeiro, ao ir ao encontro de um amigo chamado Eduardo Collier em fevereiro de 1974. Depois desse dia, eles nunca mais foram vistos.

A questão foi citada por Bolsonaro como crítica à atuação da OAB no caso de Adélio Bispo, autor da facada no presidente que foi considerado pela Justiça como inimputável por ter problemas mentais. De acordo com Bolsonaro, a entidade teria impedido o acesso da Polícia Federal ao telefone de um dos advogados de Adélio.

“Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados [do Adélio]? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”, questionou o chefe do Executivo Federal.

A fala de Bolsonaro foi repudiada por diversos políticos e instituições. A Anistia Internacional divulgou nota em que pede que o comentário do presidente seja levado à Justiça. O texto é assinado pela diretora Executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck.

“É terrível que o filho de um desaparecido pelo Regime Militar tenha que ouvir do presidente do Brasil, que deveria ser o defensor máximo do respeito e da justiça no país, declarações tão duras. O Brasil deve assumir sua responsabilidade, e adotar todas as medidas necessárias para que casos como esses sejam levados à justiça. O direito à memória, justiça, verdade e reparação das vitimas, sobreviventes e suas famílias deve ser defendido e promovido pelo Estado Brasileiro e seus representantes”, afirmou Jurema em nota.

A diretora defendeu ainda a revogação da Lei de Anistia de 1979, que impede a investigação e a sanção de graves violações de direitos humanos cometidos por agentes do Estado durante o regime militar.

Rebeca Silva

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