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RACISMO

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Perdão, Gaby Amarantos!

Cantora posta mensagens ofensivas que recebeu após criticar Sílvio Santos por racismo e o brasileiro continua provando o quanto ainda é preconceituoso :(

junho 7, 2018 às 18:54

Cantora usa as redes sociais para combater o preconceito. “Tenha coragem de ser do jeitinho que você é e não permita que ninguém te sabote.”

Perdão! Essa é a palavra que eu gostaria de dizer se encontrasse a Gaby Amarantos, depois de ver o que ela postou na sua conta do Instagram. O print da mensagem ofensiva de uma jovem modelo lhe chamando de “fedida” e “macaca”, teria sido uma reação às críticas feitas pela cantora ao apresentador Silvio Santos.

Postagem foi publicada na tarde desta quinta-feira (7) no perfil da cantora Gaby Amarantos. As mensagens ofensivas foram enviadas “in box”, mas a cantora preservou o nome de quem enviou. (Reprodução Instagram)

Nesta quarta-feira (6), em seu perfil no Twitter,  Gaby Amarantos questionou a forma como o apresentador trata negros, mulheres e crianças.

Eis que a polêmica se formou!!!

Eu, particularmente, fico perplexa ao ver casos assim. Me dói da mesma forma quando vejo comentários machistas ou xenófobos, (contra nordestinos, principalmente).

Não é porque não sou negra que deixaria de me incomodar com isso. Me incomoda sim. Me dói sim. Me envergonha sim. Por isso, comecei esse texto pedindo perdão.

Com mais de 600 mil seguidores no Instagram, cantora usa as redes para combater o preconceito contra mulheres, negros e LGBTs.

Nós, brancos, pecisamos reconhecer que temos uma dívida histórica com os negros. Não é “mimimi”. O período da escravidão foi desumano e egoísta e se reflete até hoje na forma como tratamos os negros.

Pude comprovar isso bem de perto ao viajar ao Senegal, no ano passado –  País considerado o principal ponto de venda dos escravos no continente africano. Lá, tive a oportunidade de gravar reportagens especiais sobre o período em que os negros eram negociados como mercadorias.

Se você assistiu essa reportagem acima pode imaginar os lugares onde chorei, emocionada com o que estava descobrindo ali. Me fez abrir os olhos sobre as questões raciais e garanto: por mais que se diga que isso é coisa do passado, que a escravidão já acabou há muito tempo, que o Brasil não é um País preconceituoso, me desculpe lhe decepcionar: ainda somos sim muito crueis com os negros. Prova disso está, não só na postagem da Gaby Amarantos, mas, principalmente, na quantidade de negros vítimas da violência e dessassistidos pelo poder público.

Violência: negros morrem 2,5 vezes mais do que não negros 

Esta semana, o IPEA divulgou o Atlas da Violência 2018. Os dados mostram que o Brasil bateu recorde em número de assassinatos. Pela primeira vez, ultrapassou a marca de 60 mil mortes violentas em um único ano (2016). Mas o que mais me chamou a atenção é que, enquanto o número de mortes de pessoas não negras caiu 6,8%, a quantidade de negros assassinados aumentou em 23%.

Atlas da Violência: Em 2016, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia maior que a de não negros (16,0 por 100.000 habitantes contra 40,2) (Fonte: IPEA)

Com respeito, peço licença

Eu, branca de classe média, obviamente não tenho propriedade para falar amplamente sobre racismo e preconceito, mas peço licença para compartilhar um pouco do aprendizado que tenho tido através da minha profissão.

Ao longo de 15 anos trabalhando como jornalista para apurar os mais diversos assuntos, principalmente para públicos de classes C, D e E, preciso sempre exercitar o hábito de me colocar no lugar dos outros.

Nesta aldeia, em Thiay Dhiay, no Senegal, é preciso muita paciência para conquistar as crianças. Elas fogem dos brancos com medo de serem tiradas dos pais (Foto: Návila Teixeira)

Me dói, por exemplo, ouvir meu grande amigo Ketynaldo José dizer que procura sempre ser gentil e andar bem arrumado para evitar problemas com policiais militares. Ele segue à risca os conselhos do pai, seu Lourinaldo Emerenciano, que sempre o conscientizou com muito zelo sobre as diferenças de tratamento que a sociedade daria ao seu filho tão amado. Com um coração enorme, Ketynaldo pefere acreditar que a maioria das pessoas não pensa assim, mas sabe que o preconceito é real e cruel.

Sofri, também, ao ler o relato de outro amigo, postado nas redes sociais. Gil Mendes é um excelente jornalista pernambucano que mora em São Paulo (Sou fã dele). Em seu perfil no Facebook, mandou um “alô” para a PM, que “deve gostar muito dele”, pois, toda vez que o vê, o aborda nas ruas da capital paulista. O mesmo não acontece com os brancos que caminham ao lado dele. Acho que foi esse relato que fez a minha ficha cair de vez. Isso realmente não aconteceria se ele fosse um “galego”.

Dia desses, nas aulas do mestrado, ouvi um colega PM confirmando: “É verdade. Existe um perfil básico que devemos sempre revistar nas ruas. Infelizmente, a maioria dos suspeitos de assalto são jovens negros, por isso a recomendação”.

Você,branco, deve estar dizendo agora: “Tá vendo?! Está justificado”.

Você, negro, deve estar dizendo: “Tá vendo? Não é mimimi”!

Mas o que nós, brancos, deveríamos parar pra pensar é: por que a maioria dos pobres e presos do nosso País é formada por negros? Pra mim, não tem outra explicação: nossos governantes não priorizam os negros nas políticas públicas como deveriam e empresários e gestores não dão a eles as mesmas oportunidades no mercado de trabalho.

Ou seja: mesmo a Princesa Izabel tendo livrado oficialmente o Brasil da escravidão, há mais de cem anos, não preparamos a sociedade para ter negros livres, independentes e respeitados. Ao contrário do que aconteceu em parte da Europa e dos Estados Unidos, não cedemos terras onde eles pudessem produzir nem criamos políticas de emprego para os que sempre trabalharam nas senzalas. Eles continuaram dependentes dos senhores de engenho e dos senhores do café, às margens da sociedade branca.

Nos campos das aldeias de Thiay Dhiay, interior do Senegal. O baobá desenhando a triste paisagem (Foto: Návila Teixeira)

Pra encerrar esse post, compartilho o grande aprendizado que tive com uma sábia matriarca, no Senegal. Dona Helene recebeu nosso grupo em sua casa, próximo aos campos das aldeias de Thiay Dhiay, no interior do País. Tímida, nos observava enquanto a ajudávamos a cozinhar no fogareiro de carvão colocado no chão da casa.

Ao perceber nosso interesse por ouvir suas histórias e suas orientações, ela separou as roupas das filhas para que pudéssemos usar e amarrou os turbantes nas nossas cabeças. Ao nos ver vestidas, ela me surpreendeu com uma grande lição: “você não sabe o quanto está sendo importante vê-las deixando sua cultura de lado e se interessando pela minha. Isso demonstra respeito. Você agora é minha filha brasileira! Muito obrigada”.

você não sabe o quanto está sendo importante vê-las deixando sua cultura de lado e se interessando pela minha. Isso demonstra respeito.

Mama Helene: me adotou como sua filha brasileira! Que honra!

Eu que agradeço, Mama Helene! Obrigada por me permitir tamanho aprendizado sobre amor e respeito nos seus braços!

Gaby Amarantos, torço de coração para que os brasileiros brancos possam, algum dia, ter o mesmo entendimento. Até lá, sigo pedindo perdão pelos que nos envergonham com tamanha ignorância.

Gravando reportagem na aldeia enquanto as crianças se viam na tela do celular. Usando o turbante em respeito às mulheres da região (Foto: Návila Teixeira)

Isly Viana

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