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Jayme Miranda: a luta contra a ditadura e o fim desconhecido

Jornalista alagoano lutou contra a ditadura militar, foi sequestrado, torturado e morto; seu corpo nunca foi encontrado

Março 31, 2019 às 10:24 - Por:

Jayme Miranda foi sequestrado, torturado e morto na ditadura militar e seu corpo nunca foi encontrado. Foto: Acervo pessoal/Cortesia

Jayme Miranda foi sequestrado, torturado e morto na ditadura militar e seu corpo nunca foi encontrado. Foto: Acervo pessoal/Cortesia

Um dos maiores ícones da resistência contra a ditadura militar, o alagoano Jayme Amorim de Miranda, desapareceu no dia 4 de fevereiro de 1975 na cidade do Rio de Janeiro, onde já vivia na clandestinidade há 11 anos depois de ter sido preso e torturado por agentes da ditadura. O bancário Thyago Miranda, neto do líder comunista, conversou com o Portal OP9 e afirma que a família ainda alimenta a esperança de sepultar seu avô, apesar de já terem se passado mais de 40 anos desde o seu desaparecimento.

Thyago Miranda conta que existe um procedimento investigativo aberto pelo Ministério Público Federal (MPF). “Os procuradores recolheram junto aos arquivos públicos quaisquer documentos que fazem menção ao Jayme Miranda. Também realizaram oitivas com agentes que supostamente estariam envolvidos em seu sequestro, tortura e assassinato. Nós, a família, também buscamos informações com jornalistas e militantes que cobrem o assunto. Temos algumas novas informações e pistas, e mesmo depois de 44 anos continuamos essa busca”, relata.

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Sobre a comemoração para a data, o bancário define como um escárnio total. “É inadmissível um presidente da República aventar uma possibilidade que, além de tudo, é criminosa. Porque ele incentiva apologia à quebra da ordem constitucional, que deve ser repelida, independente dos argumentos ideológicos que ele apresenta. Houve uma quebra da ordem constitucional. Sem falar nos crimes cometidos por uma minoria que se valeu de ‘uma carta branca’ para estuprar, torturar, matar. Ou seja, cometeram todo tipo de crime e violações dos direitos humanos no país”, ressaltou.

Thyago Miranda se diz indignado com a afirmação do presidente sobre só terem morrido terroristas na ditadura militar. “Meu avô foi morto covardemente. Antes disso, sofreu todo tipo de tortura e até hoje não tivemos o direito de enterrar seus restos mortais. Mas isso não chega a ser uma grande surpresa para ninguém, tendo em vista as posições adotadas desde sempre pelo atual presidente, que já declarou que ‘quem procura osso é cachorro’. Que exaltou em seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff um dos maiores torturadores brasileiros, o general Carlos Alberto Brilhante Ustra. Cabe a nós familiares e a sociedade civilizada, independente do seu viés ideológico, repudiar tais declarações, assim como cabe às instituições repelirem juridicamente esse absurdo”, opinou.

O Portal OP9 entrou em contato com a filha de Jayme Miranda, Olga Miranda, mas ela disse que não tinha condições de comentar o assunto, pois estava chocada com a comemoração recomendada por Jair Bolsonaro. “Esse retrocesso me deixou muito mal. Está difícil sair de casa hoje”, afirmou a jornalista neste domingo (31).

A história de Jayme Miranda

Jayme Miranda nasceu em 18 de julho de 1926, era advogado e jornalista. Atuou como diretor do jornal comunista “A Voz do Povo” de forma marcante, denunciando a situação dos trabalhadores da época e fazendo críticas ferrenhas às grandes oligarquias dominantes no estado de Alagoas. Era década de 50 e isso lhe valeu suas primeiras retaliações no estado, sendo preso, torturado, sofreu atentados e humilhações de forma constante.

Graças à sua atuação, Jayme Miranda chegou rápido aos maiores cargos dentro do Partido Comunista do Brasil, chegando a secretário de organização do comitê central, órgão máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O alagoano chegou a ser a segunda pessoa de Luís Carlos Prestes. Com o golpe de 1964, Jayme Miranda teve seu mandato de deputado cassado e passou a viver na clandestinidade com sua esposa, com quem teve quatro filhos. Foram 11 anos peregrinando na cidade do Rio de Janeiro, mudando de endereço constantemente.

Porém, no dia 4 de fevereiro de 1975, ao sair de casa no bairro Catumbi para encontrar com um camarada, o jornalista desapareceu e nunca mais foi visto. A família afirma que ele foi levado pelos militares, torturado e morto. Existem três versões para o fim do jornalista alagoano: o primeiro dá conta de que foi lançado ao mar a 200 milhas da costa; outra versão, do ex-delegado Claudio Guerra, alega que seu corpo foi incinerado numa usina de cana; e a versão mais aceita é a do ex-sargento do DOI-CODI paulista Marival Chaves, que disse em entrevista publicada na revista VEJA de 18 de novembro de 1992 que Jayme foi morto sob tortura, seu corpo esquartejado e jogado a um rio próximo de Avaré (SP).

Jayme Miranda, a esposa Elza Miranda e dois de seus quatro filhos. Foto: Acervo pessoal/Cortesia

Jayme Miranda, a esposa Elza Miranda e dois de seus quatro filhos. Foto: Acervo pessoal/Cortesia

Milhares de vítimas

O historiador Geraldo Majella afirma que a Ditadura Militar suprimiu os direitos elementares, como a liberdade individual e a liberdade de imprensa. Ele lembra ainda que o direito à manifestação política era impensável. “Pouco se fala de milhares de vítimas da ditadura. Muitos foram assassinados sob tortura e nunca mais foram vistos. Suas famílias continuam sem saber onde estão seus corpos. Há civis e militares vítimas da ditadura militar, bem como milhares de indígenas de varias etnias, como ficou comprovado pela Comissão Nacional da Verdade” relata.

Para Geraldo Majella, o que se deve manter presente é o direito à memória e à verdade para que nunca mais o Brasil volte a vivenciar uma ditadura. “O Estado Brasileiro a duras custas reconheceu algumas atrocidades praticadas em suas dependências como torturas, morte e desaparecimento de cidadãos brasileiros ou estrangeiros presos ou sequestrados. Mas precisa ainda identificar centenas de ‘desaparecidos políticos’, que são cidadãos que o Estado Brasileiro sequestrou, torturou e ocultou os cadáveres. E, até hoje, passados 34 anos do fim da Ditadura, as famílias não receberam os seus corpos para dar uma sepultura digna”, opinou o historiador.

Geraldo Majella lembra que centenas de alagoanos foram presos e torturados durante os dias que sucederam ao golpe militar. “Essa chaga não foi curada e só poderá ser curada ou cicatrizada com a verdade restabelecida e a memória preservada. A ditadura será sempre lembrada como um período hediondo em que o Brasil foi submetido”.

Thayanne Magalhães

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