O portal do Sistema Opinião

POP9

Especial

al

Decapitações: desigualdade é gatilho para barbárie, diz cientista

Para Jorge Vieira, os crimes bárbaros recorrentes em Alagoas são “prova de poder” das facções criminosas

Maio 18, 2019 às 09:57 - Por:

Jorge Vieira é cientista social. Foto: Reprodução/Facebook

Jorge Vieira é cientista social. Foto: Reprodução/Facebook

A forma bárbara como os integrantes de facções resolvem suas divergências aterroriza os moradores das periferias de Maceió e do interior de Alagoas. Assassinar os inimigos de forma violenta, filmar decapitações e divulgar nas redes sociais como forma de advertência para possíveis “traidores”, é algo rotineiro para essa população.

Leia também:
O estado da barbárie: em dois anos, Alagoas registra 14 decapitações

Um dos casos mais recentes, a tortura, assassinato e decapitação de Mylca Siméia da Conceição, de 18 anos, morta no final de janeiro de 2019 por estar devendo dinheiro ao tráfico de drogas na cidade de Rio Largo, Região Metropolitana de Maceió, chocou a população de Alagoas. A ordem para o crime bárbaro veio de dentro do presídio, mostrando o poder que vem de dentro das penitenciárias.

A cabeça e o corpo foram encontrados separadamente e de acordo com o delegado da cidade, Lucimério Campo, ela tinha envolvimento com drogas e estava devendo à “boca de fumo” de uma facção e tentou vender dois celulares roubados no dia em que foi morta para adquirir o dinheiro e pagar a dívida. Ela vinha sendo cobrada há algum tempo.

O crime chocou pela crueldade com que aconteceu e expôs o poder de facções que agem na cidade. A cabeça ficou exposta em uma cerca de madeira no bairro Mata do Rolo. Quem esteve no local não conseguiu identificar ao menos qual o sexo da vítima, porque o rosto ficou completamente desfigurado. Foram os familiares de Mylca que atestaram que ela seria a vítima do crime.

A cabeça de Mylca Siméia da Conceição, de 18 anos, ficou exposta em uma cerca de madeira em Rio Largo. Ela devia dinheiro a traficantes. Fotos: Internet/Reprodução

A cabeça de Mylca Siméia da Conceição, de 18 anos, ficou exposta em uma cerca de madeira em Rio Largo. Ela devia dinheiro a traficantes. Fotos: Internet/Reprodução

Situação semelhante registrada em 2018 foi a de Stefane Cristina dos Santos, de 18 anos. Ela foi encontrada morta e decapitada em uma grota próximo ao Conjunto Teotônio Vilela, também na Mata do Rolo, em Rio Largo. A morte aconteceu no dia 22 de junho e, naquele mês, a delegacia chegou a afirmar que ela vinha sofrendo ameaças de traficantes da região, já que tinha envolvimento com drogas.

Em entrevista ao Portal OP9, o cientista social Jorge Vieira aponta o Estado como um dos responsáveis pela banalização da violência extrema nas periferias. Para ele, as instituições públicas perderam a referência e o cidadão não se sente mais seguro com as forças policiais que deveriam reprimir a barbárie instalada não só nas ruas, mas também dentro dos presídios, onde a guerra entre as facções é ainda mais acirrada.

“Temos uma sociedade em crise em todas as instituições. É uma crise internacional, não só no Brasil”, opina Jorge Vieira. Para ele, o Estado que deveria representar a força de segurança responsável para reprimir e resolver os problemas da violência, perdeu o referencial.

Desigualdade social

O cientista ressalta que no país o problema da violência se torna ainda maior por conta do processo de desenvolvimento. “Em um país onde a maioria das pessoas vive com uma qualidade de vida inferior, na precariedade, o cenário de violência se agrava”, opina.

Para Jorge Vieira, a falta de políticas públicas aliadas às patologias leva o sujeito a um nível extremo de violência. “Eu analiso o fenômeno a partir de dois prismas, que são a questão das patologias. Isso que acontece nesses casos extremos de violência é patológico, e pode expressar tanto uma patologia biológica quanto uma patologia social. Esses jovens estão buscando uma identidade e é dessa forma que eles tentam se encaixar no meio onde vivem, cercados pela criminalidade”, comenta.

O cientista social cita o teórico cultural e sociólogo Stuart Hall ao tentar definir o fenômeno da violência extrema que assola as periferias de Alagoas com registros constantes de crimes bárbaros. “Ele trabalha essa questão da identidade cultural da pós-modernidade, que é a que estamos vivendo. Nessa fase, onde as pessoas precisam ser multifacetárias, e não sem identidade, remete à necessidade do ser humano se identificar. Para marginal, aquele que está à margem da sociedade, a violência extrema é um ato de firmação da identidade”, opina Jorge Vieira.

Decapitação e poder

Jorge Vieira destaca os componentes sociológicos, econômicos e psicológicos que cercam a realidade dos envolvidos nesses crimes envolvendo as decapitações. “Um indivíduo age pelo grupo. O primeiro passo ele pode ser obrigado a dar, mas olhando o lado da questão social, psicossocial e econômica, ele está buscando a firmação da sua identidade. Essas facções querem demonstrar poder, mostrar força e atuam porque o Estado está ausente. Eles estão disputando espaço entre si”.

Thayanne Magalhães

Comentários

OP9

Receba nossa newletter

Com que frequência deseja receber o informativo: