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Da caatinga para as zonas urbanas, decapitações são “prova de poder”

Quando o bando de Lampião sofreu emboscada da volante em 1938, o Estado expôs suas cabeças como forma de intimidação para outros cangaceiros

Maio 19, 2019 às 09:19 - Por:

Em 1938 as cabeças de Lampião, Maria Bonita e sem bando eram expostas como "prova de poder" do Estado contra o cangaço. Foto: Família João Bezerra/Acervo Frederico Pernambucano de Mello

Em 1938 as cabeças de Lampião, Maria Bonita e sem bando eram expostas como “prova de poder” do Estado contra o cangaço. Foto: Família João Bezerra/Acervo Frederico Pernambucano de Mello

Há mais de 80 anos Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, era capturado pela força policial da época, morto e decapitado junto com sua mulher, Maria Bonita, e seu bando de 9 cangaceiros. As cabeças foram expostas em praça pública na cidade de Piranhas, Sertão de Alagoas. Depois as cabeças foram levadas para Santana do Ipanema e em seguida para Maceió, em um caminhão fretado.

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A carga macabra só chegou à capital alagoana às 20h do dia 31 de julho de 1938. Mais de dez mil pessoas se aglomeraram diante do Palácio do Governador. O ato era uma forma de intimidação das autoridades da Segurança Pública para outros bandos envolvidos no cangaço. Desde aquela época, os alagoanos já lidavam com essa “demonstração de poder” aterrorizante.

Pesquisadores afirmam que o cangaço foi um fenômeno social protagonizado por grupos armados que percorreram o sertão nordestino entre as décadas de 1870 e 1930, saqueando fazendas e cidades como forma de lutar contra a desigualdade social decorrente da concentração de terras. Conhecido também como um fenômeno de banditismo, o cangaço foi uma reação violenta de parcelas de grupos sociais explorados no Nordeste pelos grandes latifundiários. Desde aquela época, a exploração da mão de obra barata era motivo de revolta.

Talvez sem nem sequer conhecer a fundo a história do cangaceiro mais famoso do país, integrantes de facções criminosas de Alagoas tomaram para si a prática de decapitar seus “inimigos” como forma de ameaça. De janeiro de 2017 a maio de 2019 o Portal OP9 resgatou 14 casos que aconteceram em diferentes cidades do estado. Na maioria dos casos, a Polícia civil de Alagoas (PCAL) confirma que a motivação para os crimes bárbaros está relacionada à guerra de facções criminosas que brigam por pontos de comércio dos entorpecentes.

Hoje, em vez de usar volantes para combater os bandos de cangaceiros na caatinga, o governo luta para evitar as ações das facções criminosas nas zonas urbanas, principalmente nas periferias onde o tráfico de drogas aterroriza a população vulnerável.

Alagoas é o segundo estado do Nordeste com mais integrantes do PCC

Dados do Centro de Segurança Institucional e Inteligência do Ministério Público de São Paulo, divulgados em 2017, mostraram que Alagoas é o segundo estado do Nordeste com o maior número de integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Na época, eram 970 membros. De acordo com os dados, Alagoas ficava atrás apenas do Ceará. Em terceiro lugar vem o estado do Rio Grande do Norte, com 446 membros da facção. No total, os estados nordestinos contabilizam 3.818 filiados ao PCC.

Em contato com as assessorias dos órgãos da Segurança Pública de Alagoas e do próprio governador Renan Filho (MDB), o Portal OP9 foi informado de que o governo não fala do assunto “por questões de segurança”. A equipe de reportagem questionou sobre os números divulgados em 2017 para saber se houve alguma atualização e questionou também sobre quais facções existem no estado. Perguntou ainda sobre como o Estado trata o fato de as facções comandarem o tráfico de drogas e ordenarem execuções de pessoas de dentro dos presídios. Nenhum dos questionamentos foi respondido.

Thayanne Magalhães

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